OSSUÁRIO DE CAVALOS-MARINHOS

Cleber Junio Falquete



"Cavalos-marinhos são seres frágeis, mas cativantes, que devem boa parte de sua magia à operação poética de comparação que os associa ao equino. O cavalo torna-se marinho, por mudança de escala e de ambiente, quando a pequena criatura habita o espaço quase etéreo das águas. Se o título de Cleber Falquete aponta o dedo para um ossuário é porque seus poemas se concentram sobre aquilo que resulta da separação amorosa, dos 'retalhos e soluços' da experiência. O mar, cobiçado quando está distante ou aceito quando está à frente, é povoado de desejos e de desertos, da colheita aflita do instante e de abdicações. Nascido da separação das águas - invertendo o tradicional milagre bíblico da liberação -, o mar abandona o homem bloqueado em sua condição de escafandrista. Nossas experiências e nossas palavras são como cavalos marinhos, delicadezas que por um momento nadam na água cristalina da nossa vida e depois repousam no ossuário da linguagem, 'restos de expurgos', 'espólio do inconsciente', na forma de figuras como 'ecos fósseis' ou 'cinzas de rosas mínimas'. Um ossuário de cavalos-marinhos é simplesmente a poesia. Sobre suas cinzas e pedras brancas, vem novamente bater o vento, uma ventania, que, trazendo os ecos da metáfora do título, torna-se 'cavalgada de vento'. Essa ênfase no fio condutor das imagens não é lateral em Cleber Falquete. O trabalho da figura é intenso e constante. Mas, em contraste com a experiência do 'expurgo', a relação com a linguagem é de imersão generosa e confiante, exploratória, Nela, a poesia não precisa de códigos nem de perdão. Ela continua sendo amada como nunca, "

Marcos Siscar 





O autor



Cleber Junior Falquete é paulista, natural de São José do Rio Preto, SP, onde reside desde o útero de sua mãe. Graduado em História, anda construindo a sua própria e não leciona a ninguém. É contista nas horas vagas e poeta em tempo integral. Tem contos publicados no jornaldepoesia.jor.br. Já publicou "O eco celeste das armaduras secretas, guardadas em céus claros de domingos ignorados", que, assim como este "Ossuário de cavalos-marinhos ", recebeu o Prêmio Nelson Seixas de Literatura, da Secretaria de Cultura de São José do Rio Preto. 

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