FALA VIVA

Primeiras Impressões

Parágrafo Novo



ELDORADO EVANESCENTE


“Ruídos de um rio que nunca dorme” . Esta frase encontra-se no romance Órfãos do Eldorado (São Paulo, Companhia das Letras, 2008), de Miltom Hatoum, e define sua matéria espessa, senão seu ritmo e sua elocução. O argumento narrativo situa-nos na região do Amazonas, Manaus e proximidades, embora as proximidades por aquelas bandas se assemelhem ao “logo ali” do lavrador mineiro: são léguas e léguas. Lugares: Manaus, Vila Bela, Fazenda Boa Vida, rios e muitos rios, ilhas e muitas ilhas, a ilha: o Eldorado, que é espaço submerso em águas. Muitas águas. Personagens: um ouvinte que escreve o que ouve do narrador, o narrador Arminto Cordovil, o pai do narrador Amando Cordovil, o avô do narrador Edílio Cordovil, Florita, índia e criada da família, Dinaura, uma órfã bonita, fonte de paixão e de sonhos, uma freira que cuida de órfãs, madre Caminal, e as órfãs. Nas águas que são a natureza dos rios, se afogam personagens, singram e navegam canoas, barcos a vapor e barcaças, trabalham pescadores; nas águas dos sonhos e das lembranças dos mitos vive a população pobre, e o próprio narrador nelas se afunda com prazer e se perde com enfado e desgosto.



Nos nomes das personagens, os leitores podem encontrar espaço para reflexão e ponto de partida para elucubrações simbólicas. O sobrenome Cordovil, por exemplo, permite dois desdobramentos (pseudo)etimológicos: de um lado cor-do-vil, que contrasta com os nomes que determina; de outro “coração vil” que qualifica o lado menos visível de Arminto, Amando e Edílio. Se tomarmos estes três nomes desde sua articulação no tempo, veremos uma evolução de personalidades e de história; se nos detivermos em cada um, sentiremos o vocábulo “idílio”, no nome do avô, o amoroso e amorável no gerúndio Amando e alguém que falseia e vive no devaneio em Arminto. De fato, o narrador Arminto não se dá a crer, não adquire presença fidedigna. É alguém que ama visagens, que vive de fantasias e as narra como um mitômano.



Tome-se a personagem Dinaura. Este nome concentra, em sua raiz compositiva, elementos contrastantes (turbilhão – diné – e brisa – aura –) e é dessa mulher (órfã e moça) que depende a existência do narrador Arminto, personagem central; além disso caracteriza-se pela ambigüidade ou por uma dupla natureza que não se consegue precisar direito: amante ou filha de Amando? Irmã e amante incestuosa de Arminto? À maneira das narrativas maravilhosas consiste no objeto de busca da personagem principal, um objeto que jamais se alcança depois que se pôs em fuga. Neste sentido, Dinaura é quem define a natureza do protagonista Arminto, um ser sob o domínio da paixão e cuja passividade intrínseca adquire movimento desde o primeiro instante em que encontra a moça.



Percorre o livro um sentimento de desencanto, uma espécie de orfandade espiritual, anunciada desde a epigrafe (retomada por fragmentos no corpo narrativo) extraída do desencantado poeta grego moderno, Konstantino Kavafis. Aliás, os trechos do poema grego repetem-se como motivo condutor da atmosfera que envolve a história: mesmo que viajemos, mesmo que buscamos outros lugares, o lugar de nossa origem nos acompanha; não adianta, pois, fugir. O poeta grego moderno carrega a orfandade do esplendor da arte grega antiga; Arminto, o narrador, a mesma orfandade somada à dos mitos e dos paraísos imaginados. Estes se esfumam, nem podem ser recuperados.



Dirigindo-se ao presumível escritor que o ouve e registra, Arminto, já velho, lhe diz: Estás me olhando como se eu fosse um mentiroso. O mesmo olhar dos outros. Pensas que passaste horas nesta tapera ouvindo lendas? (p. 103)O leitor não precisa testar a fidedignidade, de Arminto, o melancólico, ainda que ache improvável o fato de um advogado culto conhecer e traduzir, no começo do século XX, em Manaus, um poeta que era praticamente um desconhecido na Europa daquele tempo. Mas como Arminto, já ancião, mistura devaneio e memória, o leitor leva isso em conta, assim como não estranha o fato de o narrador ter omitido o nome de Mário de Andrade e das senhoras que o acompanhavam na célebre viagem de 1927, apenas referindo o que deles ficou de sombra: É outra a intenção do velho: Foi um alívio expulsar esse fogo da alma. A gente não respira no que fala? Contar ou cantar não apaga a nossa dor? (p. 103)



Essa confissão final ajuda a compreender o Eldorado submerso de Milton Hatoum. Um lugar que se pressente entre névoas. Ou um lugar que se desvanece entre as lendas, os sonhos, as visagens e os “ ruídos de um rio que nunca dorme ”.(p. 26-27)



Antonio Manoel dos Santos Silva

(São Paulo, 18 de junho de 2008)



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