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Primeiras impressões

Parágrafo Novo



LITERATURA E PEDAGOGIA 

(A propósito de um relato de Luis Dill)





Duas são as funções que se costumam atribuir è literatura: a de educar e a de simplesmente ser literatura. Geralmente os críticos e, muitas vezes, os próprios escritores (poetas, contistas, romancistas) defendem uma das duas idéias como a mais pertinente ou a única correta. Pelo fato mesmo de a literatura (o processo de fazê-la ou o correspondente, que é o de fruí-la) constituir-se, como as outras artes, num exercício de liberdade, acho-a educativa em si. Isto significa o seguinte: o único freio que há para o fazer literário é o próprio sistema linguístico, um sistema social, produto histórico, muito dinâmico por certo.

Mesmo assim, quando se diz que a literatura ensina ou deve ensinar, se defende que deva ter uma finalidade pedagógica, um compromisso com a melhoria do ser humano. Contrariamente, quando se diz que a literatura vale por si mesma e não por sua potencialidade formadora, se defende que ela deva ser somente expressiva, um espaço que não vai além de sua trama de signos, um trançado espesso de palavras.



Esses pensamentos me vieram quando estava lendo Todos contra Dante (São Paulo: Companhia das Letras, 2008), de Luis Dill, escritor gaúcho. Ia-me esquecendo que devo a leitura do livro a uma professora da Universidade Estadual de Maringá, Dra. Rosa Maria Graciotto Silva, que se dedica á pesquisa de literatura dirigida para crianças e jovens.



A narrativa de Luís Dill dirige-se francamente a jovens e, neste sentido, a classificação existente em sua ficha catalográfica se mostra coerente. Mas deixa entrever a dificuldade dos editores em definir-lhe um gênero: conto, novela, romance? Se fôssemos seguir Jorge Luis Borges, teríamos que aceitar tratar-se de um conto; se fôssemos nos orientar pelo tamanho (pouco mais de 80 páginas), a identificaríamos como novela; se fosse pelo intrincado das histórias que fazem convergir o enredo para um eixo temático, diríamos que estamos diante de um romance. Por isso é melhor mesmo a classificação de “Literatura Juvenil” que deixa o texto na entressombra fecunda que nos faz descobrir a melhor caracterização. Decido por romance curto, juvenil não porque seja dirigido aos jovens, mas porque seus personagens são majoritariamente jovens, principalmente o protagonista e os antagonistas. São jovens adolescentes que partilham o mesmo espaço físico, um colégio particular, mas que se agrupam segundo interesses distintos como costuma suceder em qualquer escola. Mas pode ser também “juvenil” porque se trata de um texto que se vale das linguagens dos jovens contemporâneos com a clara intenção de dirigir-se a jovens e, direta ou indiretamente, educar.



No caso desta narrativa o protagonista, de nome Dante, destaca-se por três características: gosta de ler a Divina Comédia, é pobre e de uma feiúra incomum. Traz, portanto, as marcas do “ser marginal”, que costuma ser uma das preferências, desde o romantismo, dos escritores quando querem configurar, negativa ou positivamente, seus heróis (“o exilado”, o “vagabundo”, o “pirata”, o “bandido”, “o gênio”, “o mendigo”, “o órfão”, “a prostituta”, “o escravo”, “o deformado”, etc.).



O fato de ler a obra de Dante Alighieri não marginaliza o jovem Dante em relação a seus colegas; apenas o distingue no universo dos estudantes por uma prática excepcional aos olhos dos leitores, que tomam conhecimento deste pendor e desta qualidade logo no começo da narrativa; seus colegas ficam sabendo dessa preferência de leitura somente após sua morte. Quanto à segunda característica, a saber, sua classe social, constitui um motivo aparentemente menor de sua rejeição no interior do grupo, mas se torna a motivação profunda para que a terceira característica, a feiúra, se apresente como a causa de seu sacrifício. Pois, se o protagonista é sacrificado violentamente porque sua fisionomia aparece para seus pares como um atentado à beleza física, na realidade a causa mais profunda está em sua classe, como se revela na “Comunidade EU SACANEIO O DANTE” criada pelo uso do ORKUT. Na apresentação dessa “comunidade dos colegas do dante”, logo após a descrição do aspecto físico vem a razão e a finalidade:

“além de tudo, o cara é da zona norte e fez um pouso forçado e não autorizado na nossa área, por isso, nada melhor e mais justo do que sacanear o espantalho, vambora, mostra tua criatividade, colabora pra avacalhar com essa figurinha, quem sabe ele não volta pra maloca dele?” (p. 11)



Essa chamada, em rede social, e a respectiva palavra de ordem desencadeiam uma sequência cada vez mais intensa de agressões morais até culminar na eliminação física do colega, passando por outras violências menores. O modo como o autor compõe essa história “baseada em fatos reais” possibilita que possamos inseri-la no quadro das narrativas experimentais modernas. Sem medo de errar, digo que se trata de uma obra de arte moderna, que mobiliza a montagem cinematográfica e recursos próprios da internet, variadíssimos e dinâmicos, como se sabe, com o uso dos vários registros possibilitados pela maravilhosa língua portuguesa. O livro todo, a começar pela capa, cujo fundo repercute a relação 0(zero) 1(um) específica da informática e que estampa o título Todos contra D@nte, se desenvolve com as simulações das conhecidas dinâmicas da comunicação cibernéticas: links, blogs, orkut, que servem para as formas de comunicação um com um, um com todos e todos com todos. È por meio desses instrumentos da nova linguagem que temos acesso à história. Vou-me deter em alguns deles.

Primeiramente, a relação um com todos se dá no processo de leitura, o que é óbvio em qualquer livro: o autor (um) envia sua mensagem-livro, uma espécie de hipertexto, aos leitores (todos). Em segundo lugar, os alunos usuários do Orkut (comunidade eu sacaneio o Dante), que são todos, trocam mensagens entre eles mesmos (todos com todos). Em terceiro lugar, o aluno Dante (um) vale-se de seu blog para se comunicar com o poeta Dante Alighieri (um) que, evidentemente, não responde (caberia ao leitor substituir, de modo privilegiado, ao grande poeta italiano?).



Se nos fixarmos nesta última relação (um para um), conseguiremos, os leitores, ter um desenho aproximado da psicologia do herói vitimado, de suas condições sociais e também do modo como reage às provocações, às agressões morais e físicas de seus colegas ricos. Perceberemos que há um nítido contraste entre sua vida interior, que os colegas apenas percebem depois que está morto, e a exterioridade corpórea. Trata-se de um jovem que lê Dante Alighieri e toma o poeta italiano como referência para modular-se, com clara noção das diferenças, pelo nome (Alighieri x Silva), pela importância social, pelo sofrimento e pelo amor. Um jovem de 13 anos, que lê Dante e consegue descobrir, pela comparação, semelhanças e diferenças, não se encontra hoje facilmente. Acompanhando o blog de Dante Silva que se distribui, ao longo do livro, em 10 números, ficamos sabendo como se desenvolve no seu espírito a compreensão do mundo que lhe é adverso, o mundo de uma escola privada com sua complexa rede de relações humanas.

Os 10 textos do blog de Dante Silva remetem-nos por meio de links (4, 8, 12, 16, 20, 24, 28, 32, 36, 40), a tercetos da Divina Comédia (tradução de José Pedro Xavier Pinheiro) em número de 9, e a uma canção em inglês, Far away, no link 24. Chamo a atenção para esse fato compositivo do livro, porque essa regularidade repetitiva dos blogs em combinação com os links, define um ritmo rigoroso para o texto todo: 4-1, 8-2, 12-3, 16-4, 20-5, 24-6, 28-7, 32-8. 36-9, 40-10). Para o leitor que gosta de buscar outros sentidos mais amplos e trans-culturais, é só atentar para o fato de que o link 24 liga o blog 6 à música popular anglo-americana, música de nosso tempo, e os nove restantes ligam os demais blogs a um texto poético magnífico do outono da Idade Média, escrito em italiano, mas bem traduzido para o português, na segunda metade do século XIX.

O orkut Comunidade “eu sacaneio o Dante” se faz presente 10 vezes, ligando-se, com a mesma regularidade já apontada aos links 2, 6, 10, 14, 18, 22, 26, 30, 34, 38. A cada vez que surge depois da sua descrição (p. 11), a comunidade indica o fórum da vez, progressivamente: defina o nariz do Dante (p. 19), doença ou feiúra mesmo? (p. 27), vc. já sacaneou o koisafeia esta semana? (p. 35), koisafeia é virgem? (p. 43), como aproximar koisafeia e a professora de português? (p. 51), jeitos pro koisafeia sair do colégio (p.59), a família do koisafeia é feia tb?(p.67), qual a melhor maneira de torturar o koisafeia (p.75), por que o pai do koisafeia caiu fora? (p.83). As denominações desses fóruns dão uma idéia da gradação das ofensas, da intensificação da violência moral e da ameaça física que se detalham nas frases que constituem cada um deles. Pode-se afirmar que esta “comunidade” mostra a força da malignidade. Os links correspondentes aos quais os fóruns remetem desfiam a narração centrada no personagem Dante desde uma perspectiva externa, geralmente de um narrador não personagem, narração que esclarece desde o momento em que o adolescente inicia suas aulas até a primeira agressão que sofre. Nessa narração se inserem, por meio de alguns recuos temporais ou suspensões, alguns dados da vida pessoal e familiar do herói trágico.



Pois o relato de Luis Dill contém todos os componentes da tragédia, que se revela com força insuspeita nos “diálogos” e nos links aos quais esses “diálogos” remetem. Do primeiro (“Diálogo 1”, p. 9, link 1, p. 8) ao último (“Diálogo 21”, p. 89, link 41, p. 88), acompanhamos desde a intuição do crime, o sentimento de culpa, o temor do castigo, a par do cinismo do líder e dos esforços e das artimanhas para os jovens criminosos eximirem-se, até o desvendamento, a confissão, a busca dos artifícios legais para livrarem-se da punição, o horror e o espanto coletivo. Completa o esquema trágico (como se dava nos encadeamentos definidos pelo destino, na antiguidade grega), a ameaça que paira sobre as cabeças dos jovens assassinos:

“Sob o pseudônimo de “Vingador”, Ulisses deixou uma mensagem na comunidade EU SACANEIO O DANTE: A justiça dos homens é muito lenta. Eu não. Enquanto os advogados dos quatro assassinos bacaninhas estiverem enrolando todo mundo e propondo cestas básicas como pena, eu vou agir. Cada um dos quatro vai sentir o que o Dante sentiu. Aviso: vai doer.” (p. 88)



Os quatro são Cauã, Davi, James e Manoela, sendo esta última a responsável desastrada pelo golpe de misericórdia e igualmente a personagem mais patética da narrativa, enquanto o primeiro, Cauã, se revela o mais cínico e indiferente, de uma amoralidade assustadora, que se manifesta no riso e se apóia na salvaguarda da proteção paterna, um advogado de prestígio. Não custa lembrar que “cauã”, redução de “acauã”, um gavião, se conhece em inglês como o “falcão que ri”. Trata-se, portanto de um nome simbólico, como o é Ulisses, o irmão de Dante Silva.



Estamos, pois, diante de uma obra literária pedagógica: pedagógica porque constitui um exercício de liberdade criadora graças à incorporação que faz de novos meios de comunicação e de suas respectivas linguagens; pedagógica também porque mostra as omissões da escola e da sociedade em que esta se inclui, quanto àquele aspecto da educação que se chama desenvolvimento afetivo, e, mostrando-as, orienta para as diretrizes a serem seguidas. Mas, acima de tudo, se trata de literatura expressiva, que vale a pena conhecer.



Antonio Manoel dos Santos Silva

(São Paulo, 17 de maio de 2011)



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