FALA VIVA
Primeiras impressões
Parágrafo Novo
O OUTRO DOS DOIS LIVROS DE M.P.
O livro cabe no bolso de tão pequeno. O título irradia sentidos cosmo-eróticos: Beijos de acender o dia (Belo Horizonte: Rona Editora, 2005). È um título que repercute uma das duas ou três metáforas que, segundo Borges, fundamentam a literatura, ou seja, a metáfora do fogo que refina, o fogo que arde, aquele que sai da alma, ou seja o amor, que, contrariamente, também faz brotar rios de lágrimas. Quero dizer que o título sintetiza a substância poético-conceitual do livro.
Contém, o livrinho, dez textos relativamente curtos. Cada um deles cabe numa página, página de tamanho diminuto (10 x 10 cm), dimensão que nos faz lembrar a sub-espécie conhecida como mini-conto. Entretanto ao ler cada texto ficamos indecisos em definir seu gênero. Digamos que todos nos fazem lembrar os Pequenos Poemas em Prosa, de Charles Baudelaire, pois parecem mesmo poemas que pendem ora para o narrativo, ora para o lírico, ora para o dramático. Não lhes caberia porém a classificação de “pequenos poemas”, senão de poemas pequeninos (ou, segundo o adjetivo popular, “tiquinhos”).
Outro fato que chama nossa atenção é que a autora se vale de fotos em preto e branco dispostas ao longo do livro entre cada um dos textos. São fotos de beijos, duas apenas de preparação para o beijo. À primeira vista podem ser descritas como inserções alienadas do conteúdo dos textos verbais, ou seja, não ilustram o que se lê ou que se possa interpretar com os momentos líricos ou narrativos ou dramáticos. As fotos estã lá, objetivas como todas as fotos, congelando instantes irrepetíveis: para transcenderem de si mesmas exigem um labor imaginativo por parte do leitor-espectador, um labor que descubra significados fora do quadro do que foi enquadrado. Esse fora do quadro não é nenhum dos dez pequenos poemas nem se encontra em nenhum destes. São, tais fotos, realidades autônomas, mas, como por sua fisicalidade, coexistem no mesmo volume em que se fazem presentes os textos literários, somos necessariamente obrigados a aceitá-los como intrusos. E isso indica sua função estética, mesmo que as fotos não tenham a qualidade daquelas produzidas por um grande fotógrafo (um Cartier-Bresson, por exemplo). Trata-se de uma função fundada em contrastes ou antíteses.
A primeira oposição se dá entre imobilidade do visto e mobilidade do legível, ou seja, as fotos são vistas e nos projetam realidades perfiladas ou enquadradas; os textos curtos se lêem e movem nossa imaginação para criar quadros onde se movem pessoas, se dinamizam sentimentos e se constroem sentidos. A segunda oposição se dá entre os espaços: todas as fotos mostram o mundo exterior, ainda que em primeiro plano os focos incidam sobre beijos ou seus conhecidos rituais; os textos, pelo contrário, nos conduzem a espaços fechados que são o interior da habitação e seus diferentes aposentos e, principalmente, os movimentos, ora desencontrados ora harmônicos, próprios da interioridade anímica movida seja pela paixão seja pelo amor (na realidade, pelos amores). A terceira oposição se dá no foco das linguagens: enquanto nas fotos a orientação é para parte do corpo (um modo de construção de sentidos que os estruturalistas denominariam de “sinedóquico”); nos minúsculos poemas em prosa, a orientação é para o corpo, o prazer possível do corpo. Esta orientação expressiva nos coloca no cerne dos textos. Um cerne problemático.
Quem narra ou finge que narra se nomeia como primeira pessoa. Esta forma de enunciação – a personagem narradora identificar-se como um “eu” e um “eu” ostensivamente feminino — anula os limites entre realidade e ficção, entre a pessoa empírica da autora (a escritora mesmo Malluh Praxedes)
e sua instância virtual, a personagem que a autora cria para revelá-la como primeira pessoa que narra. Assim, o tom
confessional domina e a expressão da experiência imaginária se faz intensamente egótica, diria “autobiográfica”.
Presumo que a autora não se preocupa com as distinções acadêmicas que se esforçam por alienar a biografia da experiência literária. Pois o que a move é a instauração poética do ser erótico, um ser errático que, levando-se pelos apelos do gozo corporal, se delicia com os sons das palavras que os exprimem. São muitas e variadas essas espécies de reverberação do egótico na matéria sensível da linguagem, como se vê, só para exemplificar, em Não dava pra rimar, remar, calar (p. 31), e no final de “Escancarado coração” (p. 27):
Eu me reporto, eu me reparto: um quarto pra nós, na
sala uma canção e na cozinha improvisamos coxas,
corpos , bocas, olhos e sonhos em calda quente, nessa sensata elegia…
Entre a “sensata elegia” e o “gosto tão igual a nada” da solidão, prevalecem no livro, histórias e relatos sugestivos sobre vivências que demonstram a verdade confessada com a primeira frase do conto já citado acima: Eu não tenho medo de amar. Acrescentaria aqui que a autora não tem receio de confessar esse destemor, mesmo que seja para revelar experiências tragicômicas (ver “Domingo”) ou ambíguas escolhas ao modo de “Trio em la menor” de Machado de Assis (ver “Dedos e dentes”).
Antonio Manoel dos Santos Silva
(São Paulo, Abril de 2014)