Pouquíssimos – dedos de um maneta? – escritores conseguiram unir tão bem literatura e ficção científica como Ray Bradbury, nascido em 21 de agosto de 1920, cem anos neste sábado. O cenário predileto dos contos dele era Marte, mas ele garantiu a imortalidade com o “Fahrenheit 451”, um inferno futuro em que os livros eram destruídos em fogueiras e seus leitores perseguidos pelo Estado. O protagonista é um “bombeiro”, profissional especializado em incinerar os volumes e as casas onde são encontrados.
O centenário de Bradbury terá relançamento do 451 (a temperatura em que o papel pega fogo, se o Ray se chamasse Raimundo certamente o título seria 233 Celsius) em edição de luxo. E depois vem mais uma enxurrada de relança. Aliás, em meio ao monte de matérias que comemoraram a data, um dado me deixou com um pé atrás do outro, desequilibrado: disseram que Fahrenheit 451 vendeu 75 mil cópias no Brasil só em 2019. O quê? Enfim...
Mas Bradbury é bem mais que livros pegando fogo. Escreveu outros 10 romances e publicou 17 coletâneas de contos. Os títulos valem por si só: As crônicas marcianas, Os frutos dourados do sol, O homem ilustrado, Morte é um transação solitária, Vinho de dente de leão, Algo sinistro vem por aí...
Badbury era, acima de qualquer coisa, um amante de livros e de bibliotecas. Morreu em 2012. Sorte dele: não conheceu Trump, Bolsonaro e a claque calhorda que os pariu... E nem teve que enfrentar estes tempos em que cultura é, basicamente, uma ilha de sanidade sendo aos poucos afogada pelos bárbaros.