Um revólver e um punhal na jugular

Ela ligou apavorada, dizendo que estava chegando. Márcio mal desligou o celular, ouviu a freada do velho Karman-Ghia de Isabela. Se ele não abrisse a porta a tempo, ela teria derrubado a parede.

- Que aconteceu, Isabela?!

- Ele sabe de tudo!

- Ele?

- Antenor. Sabe de tudo.

- Tudo, o quê?

- Sobre nós dois, ora! Tudo.

- Mas o que há entre nós dois?

- Tudo.

- Mas tudo o quê, criatura?

- Que nós nos encontramos, que conversamos. Que temos um caso.

- Mas… por favor, Isabela! Nós não temos caso nenhum.

- Não é o que ele pensa. E eu assinei uma confissão.

- Assinou dizendo o quê?

- Tudo.

Márcio se desesperou:

- Pare com isso de tudo, tudo! Não há nada entre nós… A gente… só… a gente…

- Tá vendo? Só… Isso é tudo. Um caso.

- Mas como assinou uma confissão dessas?

- Você já teve um revólver apontado para o seu peito e um punhal na jugular?

Márcio levou a mão ao pescoço:

- Claro que não!

- Pois é. Um revólver e um punhal. Tinha que assinar.

Márcio jogou-se na poltrona e, quando olhou na direção de Isabela, ela já havia sumido porta afora. O Karman-Ghia roncou furioso e partiu. Antes, ela gritou:

- Ele está vindo! Cuidado!

Márcio procurou um cigarro, um isqueiro, não achou nenhum dos dois. Quando se levantou para ir ao quarto, lá estava ele, Antenor, na porta. Um punhal na mão esquerda, um revólver na mão direita.

- Que é isso?! – perguntou Márcio, achando que exagerava na retórica.

Antenor avançou, apontando a arma para ele, e ordenou:

- Assina aqui.

- Posso ler?

- Primeiro assina. – Antenor encostou o punhal na sua jugular.

- Mas eu quero…

- Sem perguntas.

As mãos de Márcio tremiam, mas conseguiu ler parte da confissão de encontros, noitadas e farras com Isabela. Antenor lhe estendeu uma esferográfica.

- Você sabe que nada disso é verdade, Antenor.

- Assina.

Assinou e devolveu o papel a Antenor, que guardou o punhal, mas manteve o revólver apontado em sua direção. Antes de sumir porta afora, se desculpou:

- Desculpe-me o mau jeito. E agradeço pelo… favor.

O divórcio saiu rápido. Isabela foi morar com a mãe. Márcio volta e meia passa a mão no pescoço. Antenor casou com Margarida, que acabara de entrar na história.

(Roberto Gomes, 24/11/2013)