Os perigos que nos rondam numa livraria

Pretendia ir ao cinema. Uma jovem engaiolada na bilheteria me informou que o filme não seria exibido. Sem o que fazer, andei pelo shopping e, por automatismo, entrei numa livraria feéricamente iluminada. Mesmo em livrarias de shopping é possível encontrar um bom livro, pensei.
Levei o primeiro susto. Passou por mim um sujeito vestindo avental. Noite estranha. Promoção de livros sobre churrasco? Não. Todos os atendentes usavam aventais. Estariam se protegendo dos livros? Claro, livro junta poeira, mesmo best-sellers de alta rotatividade. Qualquer dia usarão luvas. Pegarão os livros com os dedos em pinça. Talvez sejam contagiosos.
Foi quando uma senhora passou por mim levando um livro a um senhor com cara de marido.
- A Kika não vai gostar, disse o que tinha cara de marido.
A mulher voltou à prateleira e sacou outro livro. Esse agradou ao marido.
- São textos curtinhos, aprovou ele.
Foi quando surgiu um tipo grandão, barbudo, caçando um atendente de avental. O grandão perguntou, quase aos berros:
- Onde tem um Antônio?
O atendente arregalou os olhos, perplexo.
- Tudo bem, explodiu o grandão. Pode ser um Aurélio. Um Antônio ou um Aurélio, tanto faz.
E lá saíram os dois em busca do Aurélio ou do Antônio. Antes disso, o grandão deu uma piscadela marota para mim, feliz por ter sacaneado o atendente.
Voltei às prateleiras. Estranha noite. Encontrei um romance cujo título fazia mais uma paródia da frase de Marx, tudo que é sólido desmancha no ar. Ao final havia extensa bibliografia. Livro de ficção com bibliografia. Estranho.
Recoloquei o livro na estante e fiquei feliz ao dar com uma coletânea de Rubem Braga. Um bálsamo. Abri o livro e percebi que as páginas estavam de ponta cabeça. Fechei e abri novamente o livro. Eu estava enganado. Era um truque do editor. O livro era duplo e cada metade estava impressa num sentido. O leitor abre de um lado, vai até a metade e, depois, abre do outro lado. Com o livro de ponta cabeça.
Pobre Braga. Quem terá dado aquela ideia estapafúrdia a seu editor? Quem seria o gênio da programação visual? Que sentido editorial ou literário imprimir dois livros juntos, cada um voltado para um norte? Noite estranha.
Foi quando descobri a autora autografando. Não sei quem era nem o que autografava, mas percebi que se vestia com exuberância generosa, sendo bonita, bem maquiada, as belas pernas cruzadas. Conversava com uma das moças envelopadas em avental. Diante de um cinematográfico cartaz de seu livro, a autora era a própria imagem da solidão. Conversava com a atendente e seus olhos dardejavam em busca de um pedido de autógrafo.
Voltei às prateleiras e encontrei um Ferreira Gullar. Já me dirigia ao caixa quando vi que a lombada estava danificada. Desisti do poeta. Troquei-o por um José Cândido de Carvalho, que li há muito tempo, valeria reler. Fui ao caixa, paguei e sai de fininho, perseguido pelo olhar da autora de belas coxas – olhar guloso que imaginava afinal dar um autógrafo cuja vítima seria eu.
Só me refiz ao chegar ao estacionamento. Estava salvo.
Fora uma noite estranha, muito estranha.

(Roberto Gomes – 7/02)