Meteoros, asteroides e outras pedradas

O sonho de todo cronista é acordar um belo dia, depois de uma noite bem dormida, e abrir seu texto escrevendo um sonoro “Bons Dias”, como fez Machado de Assis nos anos 1888 e 1889, no jornal Gazeta de Notícias.

Mas seriam bons dias esses que correm por aqui?
Talvez sim, mas a primeira notícia que nesse dia 15 me chega pelo rádio – sempre mais ágil do que a televisão – fala da queda de um meteoro nas proximidades da cidade de Chelyabinsk, região dos Montes Urais. Pelo jeito não foi uma pedrinha qualquer, mas – e logo em seguida foi possível ver pelas imagens postadas na Internet – uma bola de fogo que incendiou os céus da região, terminando em explosão.
O leitor, sempre mais equilibrado e tranquilo do que eu, dirá que não foi tão trágico, apesar dos quase mil feridos.
Concordo com o leitor. Mas acontece que há entre nós (eu e o leitor, me explico) não apenas uma distância física mas também uma distância no tempo. O leitor está lendo esse texto hoje, enquanto que eu estou aqui no dia 15, escrevendo. Ou seja, o leitor já sabe de tudo que aconteceu nesse tempo que nos separa, enquanto que eu, além da queda do meteoro, tenho que me haver com o anúncio de um asteroide que passará a míseros 27 mil quilômetros do nosso pobre planetinha.
Como se vê, um “Bons dias” nesse caso é quase uma temeridade.
Convenhamos que, para qualquer um de nós, mortais presos à lei da gravidade, de pés muito grudados ao chão e com meios de transporte que ainda não chegaram à física quântica, essa distância é muita coisa. 27 mil quilômetros. O máximo que consigo imaginar é algo como 400 quilômetros até São Paulo ou 700 até Porto Alegre – além disso se encontra para mim o inominável.
Mas, olhado do ponto de vista do asteroide, é pouco. Se passarmos uma régua na sua trajetória e fizermos um desvio de alguns poucos graus, lá vem ele em nossa direção.
Ainda bem que o fim do mundo anunciado para 12/12/2012 já se foi, resultando apenas num grande vexame, senão a essas alturas teríamos gente correndo de um lado para outro pelas avenidas das cidades. Se o asteroide e esse tal meteoro adiantassem sua viagem em dois meses o tumulto seria geral e todos nos sentiríamos num desses filmes que Hollywood adora fazer, com correrias, explosões, pavor.
Mas, veja o leitor, a assim chamada realidade é coisa bem diferente, o que nesse caso nos deixa mais tranquilos. Não houve o fim do mundo – pelo menos até onde sabemos – o meteoro só passou de raspão, e o asteroide, sou capaz de apostar, vai permanecer lá nas suas alturas sem causar estragos no nosso planeta. Ali pelas 17 horas vou olhar pela janela e não verei mais do que o céu de sempre e continuaremos nossa viagem espaço afora sem maiores sobressaltos.
Mas sei que o leitor pode estar rindo com essa minha crise de otimismo. Pois aconteceu outra coisa espantosa por esses dias. O Papa renunciou – o que é inacreditável para quem vive no Brasil, país onde ninguém renuncia a nada. Nem condenados pelo mais alto tribunal do país renunciam a alguns dias na Câmara dos deputados. E não adianta lembrar Jânio Quadros, pois ele apenas confirma a regra: realizou uma falsa renúncia, tentativa de retornar logo em seguida, estratégia na qual se deu mal.
Mas, como falei no Papa, devo explicar. É que no dia de renuncia foi filmado – tudo é filmado nesse mundo abarrotado de celulares – um raio atingindo a cúpula da Basílica de São Pedro, no Vaticano.
Sinal dos tempos? Um meteoro, um asteroide, um raio. É muita coisa. Ou não é nada, convenhamos. O planeta, como acontece todos os dias, segue em frente, para gosto ou desgosto de cada um de nós.
Portanto, se não iniciei como Machado de Assis, encerro tranquilamente à maneira dele:
Boas noites.

(Roberto Gomes,  16/2/2013)