De ventos, tempestades e mulheres

As mulheres me pareciam criaturas demasiado inquietas e assustadiças. Segundo meu olhar de menino, estavam sempre agitadas, sobrecarregadas a varrer, limpar, cozinhar, tagarelar com as vizinhas, cheias de ansiedades e preocupações. E falando sempre e muito.
Em oposição, eu via meu pai quieto e concentrado, dobrado sobre seus papéis. Numa fase da vida ele foi jornalista e escrevia para os jornais nos quais trabalhava, noutra fase conferia montanhas de notas fiscais de uma campanha da época, chamada Seu talão vale um milhão. Era então funcionário da fazenda estadual e tinha por função conferir se alguma empresa não cometia algum trambique.
É claro que meu pai muitas vezes se agitava, sobretudo ao encontrar amigos e comentar com eles seus temas favoritos, a política, as intrigas da situação e da oposição – ele ora estava numa, ora noutra, nunca entendi muito bem como isso funcionava. No entanto, na maior parte do tempo estava quieto na escrivaninha, curvado, escrevendo, conferindo.
Já as mulheres, entre elas minha mãe, não paravam quietas.
Uma das preocupações dela e de suas amigas era com o tempo.
- Dona Ondina! – gritava uma vizinha chamada Marlene, uma professora de educação física que tinha um rosto feíssimo e um corpo esplendoroso, o que me deixava duplamente estarrecido.
Minha mãe abria a janela:
- Diga, Marlene.
- Será que vai chover, dona Ondina?
Aí começava o ritual. Minha mãe, como todas elas faziam, rodava o olhar pelo céu e matutava um diagnóstico das possibilidades de temporal.
- Tá com cara, dizia ela.
- Aí, meu Deus, gemia Marlene, enquanto eu olhava para o corpo esplendoroso, evitando o rosto feíssimo – acho que nem coloco a roupa no varal.
Minha mãe lembrava:
- Já perguntou pra Rita?
A Rita era tida como especialista. Quando perguntavam a ela a respeito do tempo, fechava a cara sisuda de alemã, cruzava os braços e investigava as quatro direções da rosa dos ventos. Levava nisso alguns instantes, balançava a cabeça e decretava:
- Vai chover. Não dá uma hora.
- Ai minha nossa! – era Marlene, sempre aflita – O que faço da minha roupa?
Dona Rita, como se vê, era capaz de alcançar, lá longe no horizonte, uma nuvem mais escura que, segundo os ventos da hora, iria crescer e desabar sobre a cidade como temporal. Tão precisa era nisso que passava a impressão de que suas previsões governavam o tempo: ao serem flagradas por ela, as nuvens faziam o que dona Rita decretava e, fosse o caso, despencavam um aguaceiro.
Eis o que eu não entendia, além da beleza de corpo e da feiura de rosto da Marlene. Aliás, a beleza eu entendia, não entendia a feiura. Eu pegava meus carrinhos, meus soldadinhos e ia brincar nos fundos do quintal, com uma pergunta na cabeça: por que diabos aquelas mulheres viviam aflitas a respeito do tempo, da chuva, dos ventos, da roupa a secar? Não tinham mais o que fazer?
Claro, foi preciso algumas décadas para que eu, agora morando sozinho e tendo que cuidar de mim e de minhas roupas, pudesse me flagrar atento aos movimentos das nuvens, sua densidade e coloração, os ventos que as conduzem, matutando se devo ou não colocar a roupa no varal. E perguntando:
- Será que chove?
Não posso esticar o pescoço e perguntar a nenhuma dona Rita se vai ou não chover. A janela mais próxima fica no outro lado da rua, em outro edifício, e lá, pelo que sei, não há nenhuma Rita sabedora de ventos e tempestades. Estou sozinho nessa tarefa meteorológica. No entanto, agora entendo porque meu pai podia ficar quieto e concentrado diante da escrivaninha enquanto as mulheres se agitavam a troco de nada.

Roberto Gomes
27/jan/2013