Uma emoção de cada vez

Era um domingo de julho e eu acabara de voltar de Ouro Preto, cidade em que elegi como a mais importante em minha vida. Lá vivo cenas que me marcam a cada dia, seja pela generosidade de sua gente, seja pelas ruelas cheias de história.

O telefone tocou algumas vezes e muitas mensagens chegaram pelo celular. Era dia de shows pela cidade e meus amigos sabem o quanto a música me comove. Mas eu não queria sair de casa. Daria tudo para ficar deitada, pensando. E quem consegue entender o que pode ser uma vontade de ‘querer ficar em casa pensando’?

Percebi que agora gosto de sentir uma emoção de cada vez. Se aos 15 anos de vida ia à piscina pela manhã, almoçava bem e depois do almoço visitava a casa de amigos e à noite ia à missa e depois de tudo ainda reunia amigos na porta de casa e ficava ali fumando um cigarro atrás do outro ao som dos Beatles e muitas gargalhadas. Só na hora em que ia pegar no sono é que tinha tempo para deitar e ficar pensando…

Depois fui trabalhar dois horários e estudando à noite as horas se acumulavam. Era acordar bem cedo, pegar o ônibus, chegar ao trabalho cheia de sono ainda e ficar ali atendendo as pessoas que queriam falar com o TBA – sigla e apelido do meu então chefe. Corria para almoçar em casa, pegava novamente o ônibus, cheia do sono de ontem e voltava para o trabalho e de lá mesmo, mal dava para devorar um sanduíche e pegava o ônibus e ia para a faculdade. Chegando lá, eu ficava ansiosa para rever o Eduardo, o cara da sala vizinha à minha pela qual meu coração se ocupava e eu me desdobrava em criar poemas e preencher folhas e folhas de meu diário. Depois íamos para o Lucas – com o Eduardo, o Petrônio e a Mareca e lá dividíamos uma pizza a palito e uma ou duas cervejas. Éramos uma turma que mal trabalhava – só eu tinha emprego fixo, mas que se amava muito e dividíamos todas as gargalhadas possíveis.

Eduardo e eu pegávamos o ônibus e ele me deixava em casa e lá eu reencontrava uma família enorme e duas primas que moravam conosco e somente depois de ficar na fila para ir ao banheiro íamos dormir. E meus sonhos começavam a tomar forma. Sonhava com o dia em que poderia ficar ali deitada, pensando o quanto a vida é boa. Sonhando que desejava muito fazer planos e realizá-los. Queria dividir gargalhadas e conhecer a arte que todo ser é capaz de criar. Viajar para Ouro Preto era um dos sonhos de muitos fins de semana. E hoje, ao voltar de lá, feliz da vida por rever um amigo de longa data, o Gustavo peruano, era impossível não pensar nesse tempo todo em que vivo muitas emoções. Só que neste domingo, a vontade foi de ficar assim, deitada. Pensando. E consegui.

(Malluh Praxedes, 28 7 2013)