Será?

‘O consumismo é muito mais fonte de infelicidade do que de felicidade. O prazer trazido é efêmero, uma bolha de sabão – e em seguida vem outro desejo. Ele gera vaidade, inveja, uma série de emoções que estão longe de qualquer tipo de felicidade.’ (Flávio Gikovate)
Funk ostentação, carros importados, joias, Rolex, rede de hotéis cinco estrelas… O mundo acabou!, diria Alberto Villas, escritor e jornalista mineiro que escreveu um Best seller com este título. Mas não é disso que quero falar.
Imagina passear por um shopping e conseguir não consumir nadinha, nadinha. Olhar e pensar que ‘eu não preciso nada disso’, meu mundo é melhor sem nada. Cada loja agora tem seu perfume. É possível ir ao Mercado Central e encontrar a essência pelo nome da loja. A vendedora bem informada adianta: – Temos ‘Trousseau’, ‘Forum’, ‘L´Occitane, MMartan… enfim, a gente quer por que quer ter um cheirinho desses dentro de casa.
Aí você passa por um café daqueles e sabe que ali tem um capuccino com creme, um café expresso, um pão de queijo maravilhoso, uma torta de sei lá o quê, um sanduíche de ciabatta com presunto Parma e queijo roquefort e pode se dar ao luxo de escolher revistas e jornais do dia/semana para ler sem que ninguém venha te pedir para devolver. Dá-lhe um tempo para consumir e comer, of course, as delícias da nova era.
Se você cai numa livraria daquelas mega, já imagina, né? Não consigo sair sem uns dois ou três livros, todas as revistas de decoração do mês e, sei lá, se for papelaria também aproveito para comprar alguma coisa que meu escritório está me pedindo há tempos.
Roupas e sapatos são outras perdições diárias. Meu Deus, o que fazer com tantos pares de sapatos? E com essa coleção de blusas estampadas, abertas, fechadas, brancas, pretas? Colares? Mais? Anéis? Pulseiras? Rasteirinhas? Nossa, cores, tachas, tecidos, o que mais podem inventar para me tirar do sério?
Já escrevi no meu espelho: SE VIRA! É uma conversa comigo mesma. Acabei com a sapateira, escondi tudo. Eu mesma já não suportava tanto sapato, botas, sandálias, tênis. Pra quê?
Quadros. Quadros não, obras de arte emolduradas. Gosto de tê-las perto de mim. É um delírio ficar olhando aquele desenho, aquele traço nervoso, as cores se confundindo, as imagens e muitas vezes, saudade. As fotos, os fatos, as viagens e os livros que trouxe comigo.
Meu computador reserva histórias. O telefone guarda os números. Os amigos respondem. Eles também gostam de comprar carro novo – eu nunca tive um, tudo por que nunca tirei uma carteira, ou carta, como dizem os paulistas –, gostam de novas tecnologias, todos têm TVs de Led, 50 polegadas, se possível. No quarto, as TVs voltaram pra lá também. Até na cozinha, muitas TVs estão lá. Relógio? Ah! Sim! De todas as marcas, pra combinar com as roupas, por mania de colecionar. Óculos? Aos montes. Todo mundo tem. Lenços? Echarpes? Malas de rodinha? Nossa, nem novidade mais é: todo mundo tem. Cds? Dvds? Lava louças? Ar condicionado? Ventilador de teto, quem não tem?
Ah! Temos que ter pena de nós mesmos. A vida nos oferece uma novidade a cada dia e pouco se falam nas flores, nos frutos, nas montanhas. Nem as águas de março nos impressionam mais. Todos colecionam sombrinhas. Ou guarda-chuvas. Chineses, do Japão e aos montes dos EUA. Todo mundo tem.
Ler, escrever, desenhar, pintar, bordar, costurar, tocar um instrumento, passar o fim de semana não sei onde, sair para dançar, ligar para alguém somente para dizer ‘estou com saudades’, cozinhar um feijãozinho e depois descansar na rede, na brisa do mar.
E aí, será que ainda temos chance de alcançar a tal da felicidade?

(Malluh Praxedes - 27 1 2014)