Semana Santa em Ouro Preto

Carnaval eu já passei muitos pelas ruas da cidade, com pinico na cabeça – sempre gostei de ‘correr’ e subir e descer pelas ladeiras de Ouro Preto – com a Bandalheira, mas Semana Santa estava me devendo.

Fui na Sexta-Feira da Paixão para a minha querida cidade histórica. Lá, é como se eu fosse para uma parte importante de minha vida, que começou nos anos de 1973, quando me hospedei no carnaval, pela primeira vez, com Angela Xavier, minha prima que desde então vive por lá.

A casa dela e do José Efigênio, seu marido ouropretano, artista plástico e escritor, como Angela, fica na ‘Praia do Circo’, uma pracinha linda, logo atrás da Igreja do Pilar. Hospedar-me ali é um delírio para a alma e para o paladar – a gente não para de conversar nunca e vai se deliciando com as maravilhosas aptidões gastronômicas da Angela, que, com certeza herdou de nossas mães Olga e Noêmia – ambas craques nos apetrechos culinários.

O almoço era um salmão com molho de camarão – isso lá é sacrifício, meu Deus? – com batata doce, arroz e uma salada. De sobremesa doce de laranja com queijo curado. Ufa, já me deu fome novamente.

À noite era hora da Procissão do Enterro. Eu precisava muito conhecer uma das mais belas manifestações religiosas. Subimos a ‘rua da escadinha’ e lá estávamos nós, ouvindo o canto triste da ‘Verônica’ entoado no Largo da Alegria, dessa vez aos olhos e ouvidos atentos de D. Adelina, mãe do José Efigênio. Foi maravilhoso acompanhar aquele ‘funeral’ cheio de figuras bíblicas e muitos anjos e aquela música fúnebre… Impossível não se emocionar, e eu, particularmente fiquei lembrando de minha mãe Noêmia, que, com certeza, se estivesse ali choraria, como eu, que enxuguei por diversas vezes as teimosas lágrimas de uma vida inteira.

No sábado andamos pela cidade para acompanhar os tapetes que eram feitos por moradores, que nunca deixaram a tradição de lado. Muitas portas abertas e algumas pessoas ofereciam cafezinho e biscoitinhos para seus colaboradores…

Domingo foi a Procissão da Ressurreição, bem cedinho, com fiéis lotando a Igreja do Pilar e a cachorrinha Branquinha ali na escada, esperando a procissão começar. Outro momento lindo, com a multidão desfilando pelos tapetes coloridos, muitas crianças vestidas de anjos – meninos e meninas – padres, as mesmas figuras bíblicas da Procissão do Enterro e muitos, muitos fiéis…

E no final do dia era o momento esperando pela criançada – a queima do Judas, que, acompanhado pela Bandalheira (aquela fanfarra dos pinicos nas cabeças) desfilou em cima de um cavalo pelas ruas de Ouro Preto. Chegada que foi a hora, Judas foi colocado numa forca. Antes leram o testamento deixado por ele e uma pessoa avisou: balas serão jogadas para a criançada. Alvoroço total e nós, adultos também participamos da festa. São os lojistas que oferecem balas para a meninada.

Colocaram fogo no Judas e ele explodiu. Estourou. Estava terminada a celebração. Dia seguinte era 21 de abril. Praça Tiradentes fechada aos moradores, aos turistas e afins. Era dia de convidados. Festa somente para eles. Mas, não faz mal, o melhor já havia passado e minha alma estava feliz da vida. Pegamos a estrada e chegamos todos bem.

E, aqui vai o meu agradecimento para a Angela, para o Zé e afins. E um agradecimento especial a D. Adelina, que depois da Procissão do Enterro nos ofereceu um papo divertido, inteligente e uma bacalhoada ‘dos deuses’.

 

MALLUH PRAXEDES 25 4 2014