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Sem medo, sem sombras: simplesmente Elis

A gente que nasceu com mãe e pai dentro de casa, empregada pra arrumar a bagunça e babá para ajudar na troca de fraldas, na hora do almoço, pra ir pra escola, pode estranhar quando a vida de alguém não conhece essas rotinas.

Talvez para Maria Rita, ser filha de Elis Regina seja um jeito completamente diferente do nosso de viver. Mal havia completado cinco anos, perde repentinamente a mãe, o pai – o pianista, arranjador e compositor César Camargo Mariano – carregou a filha pra viver nos Estados Unidos. Ali ela aprendeu a viver num outro mundo… Já adulta a jornalista descobre que queria ser tal e qual a mãe: cantora.

De volta ao Brasil encontrou um mundo aberto para a beleza de sua voz. O primeiro apoio veio justamente de Milton Nascimento, o cantor/compositor que encontrou em Elis sua inspiração de uma vida inteira. Maria Rita conviveu com novos artistas, procurou descobrir compositores e comp�?s um mundo que ela desejava não ser comparado com o de sua mãe. Como ela mesma diz: ‘a melhor cantora que o Brasil já conheceu’.

Tempos depois, muito tempo depois, Maria Rita, grávida de seu segundo filho com o músico Davi Moraes, filho de Moraes Moreira, criou coragem e trabalhou para realizar um sonho que muitos de nós imaginava impossível: um show com o repertório da mãe Elis Regina.

Na plateia como qualquer mortal, fui pensando que assim como uma amiga sugeriu, iria fechar os olhos para ouvir a semelhança da voz de ‘Elis’. Ledo engano. Apesar do repertório impecável, dos arranjos originais e uma banda formada por emocionantes e emocionados músicos, o show ‘ beirou à perfeição’, como avaliou o produtor Pedrinho Alves Madeira.

Maria Rita chorou no palco ao interpretar uma canção da Joyce ‘Essa Mulher’, sem antes avisar que a emoção tomava conta de sua alma fazendo com que errasse letra, entradas e saídas. Mas não, não foi isso que fez o público ir à loucura. Era a emoção compartilhada, generosamente dividida com todas as pessoas que estavam ali. Fãs de Elis, fãs de Maria Rita, fãs da música brasileira. A bela música que traduz em palavras e fraseados harm�?nicos o canto sofrido de uma ‘vida vivida com força’.

Do sucesso ‘Arrastão’ de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri passeando por Milton Nascimento e Fernando Brant, sem deixar de citar Rita Lee, Guilherme Arantes e os geniais João Bosco e Aldir Blanc, o show foi impecável emoção somada à comoção.

A luz, o som, o roteiro, a presença de uma filha grávida falando da vontade de ter a mãe por perto: ‘para sermos amigas’. Aí eu pensei que ela, a menina Maria Rita não pode desfrutar por muito tempo do gosto bom de ver a mãe do nosso lado, dividindo histórias, repartindo amor na comida colocada à mesa, no vestido novo, nos sapatos coloridos, no cabelo penteado, na lição de casa. Não pode porque a mãe partiu cedo demais… Mas deixou uma história tão linda, um canto tão guerreiro que a menina se transformou em uma bela mulher. E corajosamente, pegou o canto da mãe e carregou estrada afora. Tal e qual Elis, sem medo e sem sombras.

Malluh Praxedes
19 8 2012