SANTA MARIA MÃE DE DEUS

Que eu me lembre, nunca vi tragédia igual.

Todo mundo que já foi jovem e curtiu a juventude em toda a sua plenitude, jamais imaginou que faria parte de uma ‘loucura’ dessas.

Já passei muitos carnavais na Bahia, em plena Castro Alves, com brigas por todos os lados e garrafas voando e a gente correndo… Vi blocos ameaçando outros por disputas de meninas que eles escolhiam sem que ninguém soubesse: se um cara queria ficar com uma mina, coitada dela, já estava nas mãos do carinha e ponto final. Vi acontecendo algumas vezes.

Sábado passado fui a uma festa numa casa de shows em Belo Horizonte. Imagino que não mais de 600 pessoas estivessem no local. Pulei carnaval com diversos amigos, bebi pouco e quando quis pagar a conta para ir-me embora, levei um susto: era fila pra tudo quanto é canto e o jeito era ficar ali esperando que a menina do caixa perguntasse a cada um: – Você vai pagar com cartão ou dinheiro? Olha, sem exagero, fiquei cerca de 40 minutos numa fila que quando cheguei devia ser a 10ª pessoa. Chamei o segurança e ele sugeriu que eu mudasse para a fila do caixa lá atrás. Eu ri na cara dele e disse: imagina se vou enfrentar esta multidão?

Na confusão que se formou as pessoas começaram a discutir e um daqueles ‘armários’ impedia qualquer um de sair com receio que aquele infeliz saísse sem pagar. Deu vontade de ir pra “Saída” que é na verdade a ‘ala dos fumantes’. Deu vontade de ir pra lá e pular as barreiras e sair sem pagar mesmo. Por causa de R$ 33,00 penei ali…

Enfim, não sei por que, pouco antes de entrar naquela fila fiquei olhando o lugar e pensando numa saída de emergência. É que um cara que estava no palco entrou com uma garrafa de plástico de álcool e comecei a ficar aflita. Não consegui achar graça na ‘brincadeira’. Mas, não aconteceu nada, claro. Mas jogavam aquela fumaça horrorosa pelo salão e eu dava graças a Deus por não ter ido com minhas lentes de contato, senão estaria hoje no oftalmologista tentando curar meus olhos. Mas aquilo não é ligado na tomada? Sem falar que a fiação passava toda debaixo de nossos pés cobertos por fitas isolantes. Toda hora via alguém tropeçando naquele chão. Pensei comigo: sou uma chata mesmo. Vivo achando defeito nas coisas.

Mas imagina bem: uma casa grande, com duas portas de entrada. Na entrada umas pessoas exigiam que você desse o nome completo, carteira de identidade, telefone para contato, e-mail essas coisas. Ok, mas e seguro, tem? Não perguntei, é claro, mas lá fiquei trancada com apenas duas portas – aquela na qual entrei e aquela que dá para a área dos fumantes. E sem outra saída sequer, nem janelas nem nada. E ainda por cima tinham duas galerias. E as garrafas corriam soltas ali, quando o certo a gente imagina sejam as latinhas. Há tempos, uma amiga de minha irmã perdeu a visão de um dos olhos em virtude de uma briga com garrafadas…

Aí vem aquela tragédia na manhã seguinte. Sem deixar de sofrer a cada instante, agradecia a Deus por não ter vivido nada igual. Passei o domingo choroso, vendo a televisão sem parar de me emocionar com aquela gente bonita estendida no chão. E as lágrimas caiam sem controle. Não param de cair. E em silêncio rezo por todos ali: “Santa Maria, mãe de Deus rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte, amém.”

Malluh Praxedes

28 1 2013