Quero falar de uma coisa…

Era sim o ano de 1967 e eu estava na minha Pará de Minas, assistindo a um festival de música que modificou a minha vida. Acho que foi ali que eu decidi que queria ser escritora, que a música seria minha companheira de todos os momentos e que a minha ‘travessia’ estava apenas começando.

No ano seguinte cheguei a Belo Horizonte e eu queria saber muito sobre o autor daquela música que dizia: “solto a voz nas estradas / já não quero parar / meu caminho é de pedras / como posso sonhar / sonho feito de brisa / vento vem terminar / vou fechar o meu pranto / vou querer me matar…”

Logo, logo conheci Fernando Brant, o talentoso autor de ‘Travessia’, em parceria com Milton Nascimento, hoje conhecida mundo afora.
Aí, já morando aqui, escrevendo para o jornal Estado de Minas, anos 1980, passo a fazer amizade com uma porção de amigos do Clube da Esquina. E passei a dividir mesas de bares, festas incríveis e conversas intermináveis com Toninho Horta, Nivaldo Ornelas, Tavinho Moura, Flávio Venturini, Murilo Antunes, Túlio Mourão, Wagner Tiso, Márcio Borges, Fernando Brant, Ronaldo Bastos, enfim… estava ao lado dos meus ídolos das fichas técnicas dos discos que eu ouvia sem parar – ‘Milton’, de 1970 (onde a música ‘Clube da Esquina’ foi gravada pela primeira vez e consagrou o ‘lixo ocidental’ na música ‘Para Lennon e McCartney’), Clube da Esquina (onde está gravada ‘Clube da Esquina 2’), Milagre dos Peixes (ah D. Áurea, como eu me lembro da senhora!) Minas (Rúbio, Rúbio, que pena!), Native Dancer (Nino, lembra lá em Sampa?) Geraes (Fazenda, Beabá, está nessa obra prima!)…

Impossível não se apaixonar por todo aquele universo que falava de ‘vida’, ‘amor’ e de ‘amigos’… Milton Nascimento passava a fazer parte da música do Brasil que se espalhava pelo mundo afora. E ele, apesar de ser ‘letraemúsica’ tudo junto, nunca deixou os parceiros de fora. Era no palco, dividindo a música com ‘O Som Imaginário’ em suas diversas formações, ou apresentando ao mundo jovens instrumentistas que se tornaram músicos de uma vida inteira. E, desde então venho acompanhando o universo diversificado e comovente de Milton Nascimento.

Sou apaixonada pelo cara. Não consigo deixar de me comover com suas atitudes, sua generosidade com cada um dos muitos amigos que conquista pela vida, sua alegria em viver 70 anos sempre no palco. E nos surpreendendo mais e mais…

Foi no finalzinho desse abril. Palácio das Artes. Era a comemoração dos 70 anos de Bituca e 40 da música ‘Travessia’. Eu não podia faltar a esta festa. E sentada numa das 1000 e tantas poltronas daquele teatro (aqui abro um parêntese para afirmar que eu ‘juro’ que já sentei em todas elas, tal a quantidade de vezes que entrei ali para ver shows, teatros, balés, óperas…) eu vejo no palco um Milton Nascimento renascido. Mais alegre, dançante, com uma banda comovida e entrosada, cantando a sua história do princípio, do meio e por fim, encerrou com aquela que deu origem ao show: ‘Travessia’. Mais bela do que nunca, mais madura, mais compreensível para quem sabe que o importante está descrito em cada linha daquela melodia que diz e diz e diz ‘solto a voz nas estrad as / já não posso parar…’ E o público, agradecido, chorou.

MalluhPraxedes