Passeando por aí

Sempre que vou a Pará de Minas faço questão de percorrer as ruas da minha vida. Uma delas é a Praça da Matriz. Pois ali quase não reconheci nada. No prédio onde morou a família do Seu Pepé, hoje pela manhã tinha um cara sentado nos degraus vendendo uma fruta que mais parecia pitomba… Era nessa escada que ficava o Mané, o João e alguns carinhas da turma do Ró… Lá a gente ouvia o Mané gritar: – Ô Júlia, o João tá gamado!!!… Engraçado pensar que isso foi há muito tempo e o João Ribeiro e a Júlia do Pepé continuam juntos até hoje.

Debaixo daquele prédio existia uma agência da Caixa – que não sei se era estadual ou federal. Sei que o Paulinho meu primo – marido da Ana Aurora – trabalhava ali como Gerente e mamãe sempre que ia a Pará de Minas falava: – Vou ali ver o Paulinho! Mamãe tinha paixão por ele, um sobrinho muito querido.

E, por falar em Paulinho, desci a rua em que morava quando solteiro, Rua Silvino Silva, ali na casa em que hoje tem uma farmácia. Entrei lá dentro e fiquei pensando na Tia Maria, minha madrinha querida… Ali na farmácia era a sala da casa, uma sala de jantar com dois quartos – dos rapazes e da Maria Ângela, posteriormente o quarto da Regina… Imagino que o quarto da Tia Maria e do Tio Juvenal esteja agora ocupado por um escritório de advocacia, que entra pela varandinha que abrigava uma palmeira enorme e a turma dos amigos dos meus primos: os irmãos José Oswaldo e José Roberto Guimarães, o Aguinaldo de Oliveira, José Oswaldo Mendonça, – que já nos deixou –, o Leopoldo, mais um tanto de meio-primos que frequentavam ali aquela varanda, que, ao contrário da varanda de minha casa, sempre recheada de moças, era um lugar cheio de ‘pães’, a gíria daquela época…

Aquela casa interessante, com belas tábuas corridas, uma cristaleira recheada de taças de cristal, xícaras de ‘casca de ovo’, fotos dos filhos coloridas a mão… Uma casa não deveria ser ‘destruída’ pelo tempo presente. Deveria ser como em muitas cidades europeias e de outros países que preservam o que foi bem feito.

Certa vez fui a Itapecerica, pertinho de lá e fiquei encantada com as casas centenárias com suas varandas de ladrilho hidráulico e seus móveis de família. Comentei com uma amiga decoradora: – Nossa, parece que caí no tempo!… E ela me disse: – Aqui ninguém troca os móveis por que tudo é do bom e do melhor. Todos esses móveis são de imbuia ou de jacarandá!… Penso que nossa vida deveria ser assim. Por que desfazer de coisas tão importantes, feitas com tanto carinho e tão representativas em nossa vida?

Na minha sala carrego um bar que comprei num antiquário. Nunca pertenceu à minha família, mas é como se tivesse feito parte da minha história. Também tenho uma poltrona do papai e uma mesinha de canto redonda, art-déco. Tudo de brechó. Olho para eles e me transporto para as casas que frequentei na minha infância… A sala de jantar também foi adquirida em um antiquário. Veio lá de Uberaba, junto com uma luminária azul que está na varanda. São minhas relíquias.

A vida da gente é feita de lembranças. E essas lembranças é que vão contar a nossa história. O que adianta ficar jogando tudo fora, se amanhã não teremos nada para montar nosso quebra cabeça?

(Malluh Praxedes, 20 1 2014)