Os brasileiros que valorizam mais os estrangeiros

Quando nos mudamos para Belo Horizonte, tivemos como vizinhos uma família americana de Ohio. Era encantador ver aqueles seres de lindos olhos azuis ou verdes, cabelos louros e o pai um pastor da Igreja Presbiteriana. Nos finais de semana eles saiam todos numa Kombi e invariavelmente iam para os cultos e depois participavam de piqueniques em clubes para estrangeiros e voltavam todos no final do dia com a pele vermelhinha, vermelhinha.

Passei a conviver com eles quase que diariamente. Fui baby sitter do menino Richard, que hoje é um homem que encontrei no Facebook, e que deixou a capital mineira quando não tinha ainda cinco anos de vida. Para cuidar do pequeno a mãe Shirley deixava preparado para mim panquecas inesquecíveis e uma deliciosa torta de maçã ou de morango. Era uma farra cuidar do menino que falava frases como ‘o meu casa’, ‘o meu carro’, o ‘meu mamãe’… Ríamos muito desse jeito abrasileirado que ele achou para se comunicar conosco. Era lindo o garoto.

Daquela convivência passamos a ir nadar nos clubes de estrangeiros e eu fui muito em igrejas para conhecer o que eles pensavam. Valorizei muito a Igreja Católica, de onde veio e por onde permeio a minha educação religiosa. Nas minhas idas às igrejas evangélicas quase fui expulsa, tal o desconforto que causava com meus pensamentos ainda juvenis.
Mas nada afetou o meu relacionamento com os Lee Lindner.

O tempo passou e comecei a viajar por este Brasil e logo depois por este mundo afora. Sinto-me sempre bem tratada por onde andei e sempre tomei muito cuidado para não ser uma turista indesejável. Por viajar muito, comecei a observar que nós, turistas, precisamos muito de ‘apoio’. É muito chato você querer saber onde é que fica o Mercado Central e não encontrar placas sinalizadoras. Nem um informante que ‘fale a nossa língua’. Explico: uma vez em São Luís do Maranhão, pedi ao garçom um estrogonofe – era a comida mais chique dos anos 1980! O cara trouxe o nosso pedido, mas a carne era moída! Imagina a decepção. O ‘nosso’ estrogonofe lá era conhecido como picadinho com olho rosè… Em Mossoró, no Rio Grande do Norte cachorro quente era com carne moída e hot dog com salsicha. Cheguei até a criar um ‘abecedário’ para viajantes.

Mas eu quero mesmo é falar dos brasileiros que valorizam mais os estrangeiros do que os seus iguais. Já reparou como tem gente que fala inglês com perfeição e continua dizendo ‘a gente vai estar enviando’? São dezenas de pessoas. E as músicas preferidas são as estrangeiras e só vão a shows internacionais. Por isso a nossa música tem sofrido tanto desconforto. Virou essa coisa que não dá mesmo para entender. Preferencialmente costumo prestar atenção na letra, já que como escritora, tudo é material para inspiração.

Aí os estrangeiros chegam aqui e não sabem mesmo qual o idioma que falamos. Em qualquer vitrine de Shopping Center (Centro de Compras, em bom português) está escrito ‘Sale’ (liquidação, claro que todos já sabemos). E não vou relacionar o mundo de palavras que já conhecemos melhor em inglês do que na língua pátria.

E nosso samba virou pagode, a música tropicalista da Bahia virou axé, a Bossa Nova se transformou em música antiga. E os Beatles continuam aí, firmes e fortes. Rita Lee passou a ser mamãe do rock, vovó ou outros ‘pejorativos’ mais… Paul McCartney, Mike Jagger, bem mais velhos do que ela, são eternas estrelas do rock and roll.

Aqui fica a minha indignação com a supervalorização do ‘estrangeirismo’. Cada povo tem sua história de vida e todos merecem o nosso respeito. Valorizar em excesso faz com que menosprezemos o que é nosso. Se um músico passar a compor somente em inglês, significa que não temos idioma interessante para fazer canções.

Assim, nossa cultura vai ficar ‘desfalcada’, não só na música, como na poesia, na literatura, nas artes plásticas, no cinema, na gastronomia, na arquitetura e em outras artes mais. Sorry! Opa! Isto é, sinto muito. Uma pena!

(Malluh Praxedes, 1º 7 2013)