O dia em que o Tancredo morreu

Era secretária de um diretor no banco em que eu trabalhava por oito horas diárias. Mas me foi impossível recusar a proposta de substituir Tutti Maravilha como divulgadora do recém-inaugurado Cabaré Mineiro.

Meu namorado morava no Rio e viviámos entre Rio e Belo Horizonte, mas a distância nos fazia um mal danado. Eu chorava à toa de saudade e ao mesmo tempo não queria desfazer de tudo o que estava vivendo: ganhava muito bem no banco e melhor ainda com a nova função na tal casa de shows, que era mesmo um espetáculo.

No dia 21 de abril, era domingo, lembro-me bem, e fazia um friozinho danado naquela noite. O Cabaré apresentava show de Moraes Moreira solo para uma pequena plateia que já não gostava muito do Fantástico naqueles idos. De repente entra uma amiga que trabalhava comigo e me disse assustada: – O Tancredo acabou de morrer! Não sabia o que fazer, se avisava aos donos da casa, se era preciso interromper o show, eu queria me acabar de chorar, eu amava a possibilidade de viver num novo país. Foi um sofrimento maior do que deixar de fumar – e naqueles dias fazia pouquíssimo tempo que eu deixara um vício que me acompanhou por longos anos – eu confesso que pensei: volto a fumar?

Ninguém pode imaginar como era viver sem ter um telefone celular. Quis ligar para um monte de amigos, já passava das dez da noite e meu sofrimento me fez cometer uma loucura: deixei Moraes Moreira cantando e fui-me embora para casa. Sabia que no dia seguinte seria feriado com comoção nacional. Como é que poderíamos viver sem aquele que o Brasil inteiro gritou quando recebeu o voto derradeiro que o levaria ao posto máximo do comando de uma Nação?

Cheguei à minha casa e comecei a ligar para todos os amigos e chorávamos juntos. Nunca senti uma dor ‘nacional’ tão grande. As redes de televisão não falavam de outra coisa – onde será velado o corpo: Brasília, Belo Horizonte e o enterro foi marcado para São João Del Rei, onde nasceu Tancredo Neves. 

Na segunda-feira fui para a casa de meus pais para dividir aquela imensa dor. O telefone tocou e era o meu namorado procurado pelo Murilo… Era engano, mas reconheci a voz, claro, mas havíamos brigado na última vez em que estive no Rio e emocionada perguntei: – É você?… Aquele telefonema fez um bem danado para nós dois. Ele veio para Belo Horizonte e fomos para a Praça da Liberdade acompanhar a multidão que chorava em coro. Caminhamos de mãos dadas, dividimos aquela dor, fizemos as pazes e passamos dias maravilhosos, tristes, mas felizes por termos reatado o namoro…

(Malluh Praxedes 21 4 2013)