Gal, ternamente Gal

Gal já foi legal, fatal. Hoje está fenomenal, mesmo que esta não seja uma boa rima…

Teve gente do meu lado que estranhou – queria ver show com tudo o que viu/ouviu lá pelos idos de 1970. Mas a moça cresceu, criou juízo e renovou tudo. Uns caras jovens, com jeitos diferentes de tocar, de modular a música, o ritmo, os tons. E Gal renovou tudo. Só não perdeu a beleza da voz.
Se o tempo passa e você não se renova, a vida fica lenta e você nem se reconhece mais. O mesmo cabelo parece opaco visto tanto tempo depois. Agora, quando o ‘arranjo’ é outro, a sensação é a melhor possível. Gal se renovou. Por completo. E o público que compareceu ao Sesc Palladium percebeu tudo. E aplaudiu como nunca. Ou como a poucos. Foi tudo perfeito: a luz, os músicos, a direção de Caetano com o apoio de seu filho Moreno Veloso, o figurino da Gal, a maquiagem que realçava seus belos lábios vermelhos, a sensação de que o mundo não parou e que o canto da Gal continua ‘divino/maravilhoso!’

Sempre penso assim: gostar de uma pessoa que já tem história é fácil. A gente sempre admira aqueles que vão andando na nossa frente e são meio que nossos ídolos. São principalmente artistas: atores, cantores, escritores, compositores, pintores, fotógrafos… A vida vai fazendo seus registros e nós vamos montando nossa pirâmide de ‘admiráveis personalidades do nosso mundo’.

Agora, você abrir seu coração para quem está chegando, não, nem sempre é fácil. Já reparou como os adultos têm dificuldade em dialogar com as crianças? Conversam como se eles fossem ‘pessoinhas’: – Quer gagau? (mingau); Quer mimi? (dormir); Quer naná? (dormir também)… Enfim, estou falando isto por causa do show da Gal. Ainda. Ela dividiu o palco com jovens músicos – talvez o mais velho não tenha completado 30 anos. Quer dizer, são jovens, bem jovens para conhecer a carreira de uma mulher que se jogou na música há mais de 40 anos atrás. Pois isso pra mim chama-se ‘generosidade’. Coração aberto para o novo. E foi assim que ela dividiu o palco, sem arrogância (eu já sabia disso, meu cara, e você ainda nem tinha nascido!) Não, Gal tratou aqueles músicos com o mesmo respeit o que eu sei, ela tem por Caetano, pelo Gil, Milton Nascimento e outros tantos.

E aí está o valor daquela noite. Ser artista é compreender e querer compreender e conhecer e aceitar e experimentar. Sempre. Assim faz Milton Nascimento. Assim tem feito Caetano Veloso. Quem abre o peito recebe mais alegria. O mundo abre portas e a gente descobre novos caminhos. Viver só pode ser assim: sem medo de explorar novos rumos. E aí, com certeza, a vida ficará cada vez mais saborosa! Pois o bom da vida é experimentar, sempre. Bom apetite, pois!

Malluh Praxedes
9 8 2012