TESTE- PÁGINA LIVRO

E depois escrever

Sempre gostei muito de aprender, de conhecer o mundo aos pedaços. Nunca soube explicar isso exatamente. Minha mãe não entendia muito bem e meu pai não dava palpites. Curiosa nata, eu observava e adotava o que apreendia e fazia daquelas novidades um sonho atrás do outro. Imaginar e ficar imaginando era o melhor dos mundos. Mas eu mal me cabia nele.

Se morresse alguém, o necrotério receberia o corpo para aprontá-lo para ser enterrado. E minha casa ficava ali do lado, com a Tipografia Globo de minha tia Nega pronta para imprimir os convites que eram distribuídos e colados nas lojas, nas padarias, em locais por onde se avisava e convidava para o velório e enterro. Menina que era e que sabia ouvir e contar voltava correndo pra casa pra comunicar a notícia para a família inteira.

Mas antes do tal enterro, eu passava no necrotério para ver quem é que estava ali sendo preparado para partir para a vida eterna. As enfermeiras contavam histórias e eu não sentia medo algum. Vi muita gente que morreu esfaqueada, com tiro em um duelo que jamais me esqueci, afogado – o filho da biscoiteira que era um amigo nas horas em que acompanhava mamãe para buscar os biscoitos do fim de semana. Via de tudo. E contava em detalhes e mamãe avisava: – Filha, não faça isto. De noite você não vai dormir. Parece que ela adivinhava. E eu não dormia mesmo. Ficava me lembrando daquele corpo quieto, a boca ficando arroxeada, o medo vinha logo. Mamãe voltava no quarto pra ver se eu tinha dormido e me encontrava lá com os olhos amedrontados e me lembro de ter sentindo um frio que cobertor algum resolvia. Mas quando mamãe passava a mão nos meus cabelos ou começava a rezar para o medo passar logo, eu já nem me lembrava de mais nada.

Por ser muito curiosa, aprender a ler foi uma delícia e tanto. Quanto mundo me esperava ali. Ir ao Centro Literário Pedro Nestor para buscar livros para as minhas irmãs lerem, era bom demais. Sentia-me adulta e responsável. Ia sozinha. Chegava à biblioteca do Centro, passava o nome do livro para a atendente e voltava correndo com o livro, só para ver o entusiasmo de minhas irmãs. E gostava de devolver o livro também. Achava importante. Aproveitava para ver os moços que ficavam na sala de leitura, que tinha mesa gigantesca com revistas e muitos jornais. Os moços fumavam e conversavam. Quando voltava pra casa minhas irmãs queriam saber tudo: quem estava lá, como estavam vestidos, se estavam fumando, lendo…

A vida estava ficando divertida. Ver e ouvir e falar. E agora eu também sabia ler. Que mundo maravilhoso se apresentava para aquela pequena criatura. E foi assim dia após dia. Comecei a escrever muito cedo. Nos meus diários que ainda hoje estão guardados aos montes – nunca deixei de escrevê-los – com poemas e ‘pensamentos’ de uma criança que sonhava em ser escritora.

E ainda hoje guardo comigo uma sensação maravilhosa por saber que o mundo sempre apresenta uma surpresa atrás da outra. Apenas com um jeito livre de olhar… Simples assim.

Malluh Praxedes