De filha pra mãe

Mãe, minha linda, você sabe o quanto sinto a sua falta no meu dia a dia. Falta por qualquer motivo: pela sua alegria constante, pelo seu jeito delicado de tratar as pessoas, pelos suas comidinhas: as empadinhas de ‘massa podre’, as roscas rainhas mais impressionantes que pude experimentar, os biscoitos de polvilho, ah, mãe e aquele doce de pão? O Paulinho da tia Maria conseguiu a receita com a Ana Aurora e agora posso sentir aquele sabor maravilhoso!

Mas, mãe, sabe do que eu nunca me esqueço? Eram os domingos com seus sábados antecessores. Chegar sábado já era um suplício, mas os domingos eram o melhor da semana. Sabíamos que um vestido novo, engomado, passado ou renovado estaria ali dependurado no cabide que enfeitavam uma sala inteira, com pares de sapatos engraxados e meias brancas.

Você se levantava depois do alvoroço de cada uma das filhas que ali se vestiam querendo ver, mesmo sem espelho na sala, como é que estava aquela ‘produção’ toda. Quanta euforia, quanta alegria junta e misturada. Você ia consertando o laço, ajeitando a saia com suas gomas e depois era hora de pentear cada uma de nós. E meus cabelos, sempre cheio de cachos e volumoso era o mais difícil da sua manhã de domingo. Mas não me lembro de você se queixar disso, pacientemente ‘domava’ o cabelo e me assegurava que eu estava pronta para sair para a missa das nove. Nunca duvidei das suas certezas.

Agora, mãe, passados tantos anos, você nos deixou já adultas, cada qual em sua casa, cada qual com sua vida, deparo-me com uma grande surpresa numa noite de sábado. Após o show de Serginho Moreira vejo numa mesa ao lado uma de suas irmãs que eu ainda não conhecia, mas que já sabia de suas habilidades com a arte de bordar histórias. Era a Rosane Moreira que há tempos atrás me presenteou com uma fronha bordada com a frase ‘olhai os lírios do campo’ – proferida por Jesus no Sermão da Montanha.

Dias antes desse sábado em que conheci Rosane eu havia transformado a fronha num barrado de um lençol tão lindo que fotografei… Mostrei à Rosane ‘nossa parceria’ e ela ficou feliz. Aproveitei para contar nossa história, mãe, e para minha surpresa, hoje pela manhã recebo um presente que Rosane deixou para mim: uma boneca linda e um pano bordado com um poema escrito assim: “São seis os vestidinhos engomados, / bem passados. / Ali na parede, pousados, / são como passarinhos, / que tomam o caminho, / uma breve brisa e se tornam alados. / Cada ponto docemente costurado, / mãos tão suaves nos preparam para o domingo. / São seis as menininhas / que tomam o caminho / saltitantes, alegres, sorrindo, / vão rezar ao bom Deus, / agradecer pelo carinho: / Obrigada, Senhor, pela nossa mãezinha.”

Mãe, não é preciso dizer mais nada.

Obrigada, mãe. Obrigada, Rosane. Vocês duas e sua arte de ler, compreender e transformar a vida em emoção pura e simples. Lindo!

Malluh Praxedes / 9 7 2014