Das viagens que fiz

Vivo prometendo a mim mesma que um dia publicarei histórias das centenas de viagens que venho fazendo vida afora. Adoro. E devo dizer que conheci o mar somente aos 19 anos de idade. E foi muito divertido. Tão divertido que nem sei se saberei contar direitinho assim no papel para que quem for ler entenda como foi cheia de surpresas. Para mim, é claro!

Pois então eu era assim o que podemos chamar de ‘marinheira de primeira viagem’ e saio de férias com uma colega de trabalho. Já tínhamos ido a Salvador e no ano seguinte fomos a Fortaleza, Natal, Recife. Naquele ano resolvemos andar mais um pouquinho: a viagem começaria por Fortaleza e terminaria em Salvador – cidade em que passei seis inesquecíveis carnavais na ‘Praça Castro Alves é do povo’… como cantava Caetano Veloso.

Pois nosso roteiro previa um retorno a Fortaleza, depois a descoberta das cidades de Parnaíba, Teresina, São Luís, Belém e o terceiro carnaval em Salvador. Na verdade nem me passava pela cabeça ir um dia sequer a Parnaíba. Foi ideia de mamãe que me pediu: – Filha, tenho uma grande amiga que mora na Parnaíba, a Jeanete Morais, pessoa que admiro muito e com quem correspondo através do Boletim da Ordem Franciscana… me faz um favor, já que você vai lá em cima, desvia um pouquinho e vá procurá-la. Já viu, né, pedido de mãe a gente não recusa. E foi o que fizemos. Depois de seis dias na maior loucura em Fortaleza – tocando violão na praia, amanhecendo na barraca da Vozinha, levando os amigos pra casa de carro (eu no volante; apenas estava aprendendo a dirigir, mas fazia esta loucura para não correr risco de vida!), falei pra Miriam: – Se a gente não sair daqui nós vamos morrer! Férias são pra gente descansar e não ficar nessa farra. Eu estou cansada demais!
Miriam topou, ligou para a Vasp e tinha passagem dali a algumas horas. Entramos no voo dormindo ainda, tão cedo e o cansaço bateu de vez. Só me lembro do ‘aeromoço’ falando pra quem quisesse ouvir: – Café com leite, leite ou chá? Eu ri de olhos fechados porque abrir os olhos era um suplício.

Chegamos e pegamos um táxi que nos levou ao endereço: Rua Josias Morais, número tal. Ninguém atendeu e comecei a gritar: – D. Jeanete?!!! Da casa ao lado uma morena bonita veio nos salvar: – D. Jeanete é minha sogra, ela não está. Foi para Luís Corrêa!… Meu Deus, eu sei lá o que é Luís Corrêa? A morena, vendo a nossa aflição e nosso ar desconectado explicou para o motorista: – A casa deles fica atrás da fábrica de gelo.
E assim chegamos numa casinha bucólica, com porcos passeando na areia, um casal com os cabelos bem brancos, uma indiazinha brincando com as galinhas e eu pensei: – Miriam, que loucura é esta? Aonde viemos parar!!! Minha amiga me disse: – Bom, a mulher é amiga da sua mãe, vai lá e se apresenta! E foi o que fiz. Disse algo assim: – Adivinha de quem sou filha? Uma dica: vim de Belo Horizonte. D. Jeanete logo acertou: – Filha da Noêmia! O marido dela, Joás correu e pegou as malas – na verdade duas mochilas feitas pelo Carlinhos Niquini – e se adiantou e pagou o táxi.

Assim, em minutos estávamos sentadas à mesa comendo camarões graúdos, servidos à francesa pela indiazinha. A casa era simples, mas cheia de redes e logo que acabei de almoçar aquela delícia toda (sou louca por camarão!), meus olhos não me obedeceram e pedi cama. D. Jeanete se adiantou: – Hoje é dia de São Sebastião e tem procissão, missa e quero levar vocês para participarem de tudo. Sua mãe é tão católica, você vai gostar…

Pedi para dormir um pouquinho antes da programação religiosa… Ela estranhou e comentou: – Nossa! Tão jovem e cansada desse jeito? Pensei que você fosse querer conhecer a cidade, tomar um sorvete, ir à praia… Nem ouvi direito. Caí na cama e dormi… (continua)

Malluh Praxedes