Das viagens que fiz – última parte

O nome do gaúcho era Paulo. Lindo, educado, inteligente, foi nos mostrando Teresina. Ele nos levou a um lugar bucólico: um bar onde no lugar das cadeiras haviam redes rodeando uma mesa. Cada qual ficava esticado ali balançando, bebericando e beliscando delícias do Piauí em mesas baixinhas, um lugar rústico e inesquecível.

Quando chegamos em casa uma surpresa: a dona da casa, a outra filha da D. Jeanete havia preparado tudo o que gostávamos: saladas de fruta, uma massa fresca e torta de morango e doces regionais. Uma mesa posta, na enorme cozinha daquela casa deliciosa. Um quarto reservado para nós deixava claro que D. Jeanete havia passado todas as informações ‘necessárias’: uma cama e uma rede (Miriam no Nordeste só queria saber de dormir na rede, tal o calor que ela sentia).

Na manhã seguinte acordei com um bilhetinho entrando debaixo da porta. Li. Era a dona da casa oferecendo mais uma delicadeza: o Paulo iria nos acompanhar a um tour pela cidade. E assim ficamos sabendo que a família era proprietária de uma fábrica de sabonetes muito famosa que levava o nome da família Morais. Conhecemos igrejas, museus e muitas lojinhas de artesanato local. Terminado o tour, mais uma vez tive uma vontade louca de ir embora. Dali fomos ao aeroporto e já marcamos nossa ida a São Luís.

Acreditem: não conheci a dona da casa, a outra filha de D. Jeanete. Despedimos-nos do Paulo e fomos direto para São Luís do Maranhão, ainda com aquela mochila pequena e sem roupas adequadas para um imprevisto.

Foi chegar a São Luís vi que nada daquilo me faria feliz. Achei a cidade pequena, sem graça, o povo educado, mas sem o charme dos cearenses, mas como já tínhamos comprado os trechos todos, agora era tarde para desistirmos de seguir adiante com nossa rota do Nordeste ponta a ponta. Depois de ter andado pela cidade velha, entrei numa loja da Vasp e falei pra Miriam: – Vamos embora amanhã? A gente vai logo para Belém e pronto!

Na poltrona ao lado da minha estava um carinha marcando viagem para Salvador. Gostei do moço. Logo puxamos conversa e ele me disse que estava indo embora na quarta-feira à tarde. Falou que estava chegando e que tinha um primo em São Luís, que o Ribamar era gente fina demais, que poderíamos fazer um tour. Topei na hora e Miriam também. Marcamos o mesmo voo. Nós desceríamos em Fortaleza (e até hoje não conheço Belém do Pará) e ele seguiria viagem para Salvador. Tudo ali em cima da hora, contando com a sorte de gostarmos da companhia daquele estranho e seu primo Ribamar.

Despedimos-nos ali mesmo e à noite ele – de quem não me lembro sequer o nome – mais seu primo Ribamar chegaram pontualmente conforme o combinado. Naquela hora nem me importei com meus vestidinhos de verão e fomos no carro do moço, que acho que era baiano. Eles nos levaram na Base do Germano, o lugar mais famoso daquele ano, que servia uma sopa de camarão chamada ‘caldeirada’. Até hoje eu me lembro da delícia que era aquele prato fundo cheio de camarões gigantes com aquela pimenta arretada. Foi demais.
No dia seguinte nossos agora anfitriões nos levaram a um clube e experimentamos nadar em água doce, coisa que em viagem dificilmente eu fazia. Meu amigo mergulhou para fazer uma gracinha pra mim e eis que ele errou o alvo e quebrou o nariz. Terminamos a tarde num hospital local, que, graças aos conhecimentos do Ribamar foi atendido imediatamente e ficou aquele clima estranho, um narigudo nariz com esparadrapo e inchaço inacreditável.

Na manhã seguinte voamos juntos e rimos muito do nariz quebrado.
Um parêntese. Quando cheguei a Belo Horizonte contei as peripécias para mamãe e quis saber como é que era sua amizade com D. Jeanete. Foi quando descobri que as duas não se conheciam pessoalmente. Elas eram amigas de correspondência. Mamãe escrevia para um jornal da Ordem Franciscana e Jeanete era leitora assídua de suas crônicas. Passaram a trocar correspondência e assim nasceu uma amizade linda, que me fez conhecer uma alma boníssima, uma figura ímpar que nunca mais vi. Nem mamãe teve o privilégio de encontrá-la. Uma pena.
Apenas para justificar a minha indelicadeza com a filha dela, que nos hospedou tão belamente em Teresina, a outra filha, a Cristina – que nos acolheu em Parnaíba – veio participar de um congresso em Belo Horizonte e mamãe teve o prazer de hospedá-la e eu, hóspede ingrata pude me redimir: acompanhei Cristina em tudo o que ela quis: shows, museus, parques e praças. Ficamos amigas, mas reencotrá-la que é bom, nunca mais!

Malluh Praxedes