Das viagens que fiz III

D. Jeanete nos salvou como pode. Miriam ficou tão picada que teve que ir a um hospital. O pescoço dela parecia uma alergia contínua, um vermelhão em alto relevo. Comigo foi diferente: fiquei com as pernas gigantes, pareciam pernas doentes, doía tudo, por todos os lugares.

Não tinha levado calça comprida para cobrir as pernocas picadas. Falei com D. Jeanete que estava receosa de continuar ali, que não estava nem com vontade de ir à praia (com uma desculpa clara do pavor das muriçocas), que já pensava em ir-me embora. Ela respondeu: – Vocês estão precisando é de ir pra Parnaíba, conhecer a vida daquele lugar. E nos deixou na casa de sua filha Cristina e do seu marido Cristiano.
No sábado à tarde chegamos àquela casa chique, formal, cheia de móveis de madeira de lei, cristaleiras e tapetes persas. O casal nos convidou para um lanche antes de irmos para um evento no salão de festas do aeroporto local. Falei que não tinha levado roupas adequadas para festa e Cristina disse: – Que nada! Jovem pode vestir qualquer coisa!

Miriam tinha um vestido branco muito bonito que ela colocou e ficou muito bonito. Eu tinha um vestidinho branco com bordadinhos coloridos e ficou assim, assim. Não estava nada feliz por saber que havia deixado o que tinha de melhor em Fortaleza, na casa de minha amiga Albeniza e do Dalton. Enfim, fomos daquele jeito que deu.
Ledo engano. A festa estava mais que chique. O casal impecavelmente vestido, e eu escondendo minha sandália rasteira por debaixo da cadeira. Nossa mesa era a mais visitada e aquilo estava me deixando nervosa. Miriam não, estava bem, o vestido era realmente muito bonito e ela calçava uma rasteirinha prata, que não derrubava o traje. Simples, mas bem adequado para uma jovem.

Para nossa alegria começou a festa. Era uma solenidade formal várias pessoas numa mesa enorme, com toalha idem e muitas flores. O cerimonial começou e pude deixar meus pezinhos à vontade, já que as atenções estavam todas voltadas para o evento. A surpresa veio imediatamente: os homenageados eram simplesmente nossos anfitriões: Cristina e Cristiano, ambos professores daquela escola maravilhosa que a Miriam descreveu para D. Jeanete: – Conservado o prédio, heim?
Claro que não tirei os pés da cadeira. Nem aceitei convite algum para dançar. Miriam dançou com o Cristiano e com uns dois carinhas que vieram até a nossa mesa. Ela curtiu a festa. Eu não consegui.
Na manhã de domingo amanheci querendo ir embora. Só sabia reclamar do meu guarda-roupa chinfrim que eu havia levado naquela mochila do Carlinhos Niquini. O casal nos levou à praia Delta da Parnaíba e lá reencontramos D. Jeanete e o Sr. Joás. Foi um piquenique meio farofeiro, mas foi muito divertido.

No final da tarde o casal nos levou à rodoviária. Chegamos e encontramos o ônibus que levaria à capital Teresina completamente lotado. E eu sou assim: quando quero uma coisa fico possessa se não consigo. Comecei a demonstrar inquietação. Cristiano foi na janela e começou a perguntar: – Alguém aí tem duas passagens? Um cara respondeu: – Tenho essas duas aqui. Resumo da ópera: os caras entram, compram passagem e ficam ali vendendo, como cambistas na porta dos teatros. O preço é mais caro, mas era assim que funcionava para aqueles que chegavam em cima da hora, como nós. Cristiano comprou nossos lugares e não quis saber de receber o dinheiro. Nós, ‘durangas’, adoramos!

Quando já estávamos sentadas confortavelmente rumo à Teresina, Cristina perguntou: – Vocês conhecem Teresina? – Não, respondemos. E têm onde ficar? – Chegando lá a gente procura um hotel!… Foi quando ela tirou um envelope e me entregou: – Olha, tenho uma irmã que mora lá e mamãe me entregou este bilhete pra ela. Chegando lá, amanhã cedo vocês ligam e procuram por ela. Todos os contatos estão aqui.
Foi um alívio bom. Pelo menos poderíamos contar com algum ‘help’ se fosse o caso.

De Parnaíba até Teresina era um bocado de chão. Se saímos às 16 horas acredito que já perto das 22 horas nós estávamos ali sentadas, vendo uma estrada cada vez mais deserta e quente. Ao redor um medo grande: os homens pareciam do bando de Lampião: usavam peixeiras e aquele chapéu típico que eternizaram o cangaceiro. Olhei pra Miriam e comecei a sentir um medo infernal! Que arrependimento, meu Deus, e agora?

Eis que chegamos à rodoviária e dentro do ô?nibus só nos duas: as caipirinhas mineiras que ardiam de pavor. Falei pra ele: – Moço, nós não somos daqui, esta rodoviária deserta, o que vamos fazer? Ele olhou pra nós duas e falou calmamente: – Alguma de vocês chama Malluh? E eu assustada respondi: – Sou eu!

Lá fora, um louro de olhos azuis nos esperava. Um carinha lindo, lindo, lindo. Ele se aproximou e completou: – Vim buscá-las. D. Jeanete ligou e a filha dela, que é minha cunhada, me pediu para vir buscá-las.

Santo Deus, milagres existem. Viva São Sebastião!, eu pensei. Viva!

(continua)

Malluh Praxedes