Das viagens que fiz II

Acordei com o maior susto do planeta!!! D. Jeanete gritava tão alto que imaginei que ela esteve gritando a vida inteira. Pulei da cama, e minha amiga Miriam da rede em que estava. Mal tive tempo de dar uma ajeitada naqueles cabelos enormes e vestir qualquer coisa e ficar a postos. D. Jeanete repetia: – O que é isto? Já faz mais de duas horas que estamos tentando acordar vocês! Aconteceu alguma coisa? Nós vamos perder a missa e a procissão!

Eu não podia contar a ela que estivemos seis noites sem dormir, que Fortaleza é uma cidade enfeitiçante – ok, é uma palavra meio esdrúxula, mas é a melhor maneira de explicar o que era aquela vida de praia, cerveja na Vozinha e cantoria com Stelinho, Cirino, Chico Pio, Zé Maia, Caio Silvio e tantos outros, orquestrados pelo eterno Claudio Pereira, o cara mais genial que conheci na vida.

Mas mesmo assim, assustadas, entramos no carro com o Sr. Joás dirigindo rumo à Parnaíba. D. Jeanete mostrava-nos a cidade e eu ainda atordoada por ter sido acordada no que eu pensava ser um sono eterno, ia ouvindo e cutucando a Miriam para prestar atenção para mim. Ela mostrava as praças limpíssimas, as ruas abertas e claras e de repente parou o carro e mostrou um prédio azul claro, muito bonito, antigo, com enormes janelas e cheia de entusiasmo Dr. Jeanete falou: – Aqui é o colégio da cidade. Neste colégio eu fiz o primário, o colégio e me formei professora!…

Eu, como já disse só ouvia e abria os olhos de soslaio, falar que era bom, nada. E ao sentir minha nova cutucada Miriam falou: – Nossa, D. Jeanete, conservado o prédio, heim?!

Não preciso dizer que o silêncio foi total. Miriam havia acabado de chamar a nossa anfitriã de mais do que velha. Eu só queria rir da mancada, meu Deus, imagina, hoje tudo é restaurado, mas pouco importa, ninguém pediu desculpas, e o que resultado do cansaço nos transformava em duas ‘ripongas’ de Minas Gerais…

Depois de visitarmos uma sorveteria com sabores de frutas até então completamente desconhecidos por essas plagas: siriguela, umbu, cajá, açaí, pitomba… fomos para a tal missa e a procissão. Era dia do Padroeiro de Parnaíba: São Sebastião.

O meu sono me fez ficar do lado de fora da igreja e prostrei-me num banco na pracinha que rodeava o local. Os fiéis enfileirados acompanhavam o padre que rezava e repetia: – Viva São Sebastião! E os devotos aclamavam: – Viva!… Assim, amparado por um andor, São Sebastião seguia meio equilibrado pelas dezenas de fervorosos devotos do santo que atendiam a suplica do sacerdote: – Viva São Sebastião! E o coro repetia: Viva! Viva! Viva! – com a mesma velocidade com que ‘corriam’ com o santo.

Miriam e eu rimos muito. Rimos bastante. Por que será que eles carregavam o santo naquela correria toda? Assistir aquela cena estava bom demais. Queríamos fumar, conversar sobre as diferenças de nossos costumes e ficamos ali com nossos vestidinhos vaporosos e eu com o meu cabelo gigantesco ao vento quente daquele janeiro. D. Jeanete e Sr. Joás de revezavam barraquinha que venderia depois da procissão delícias da região: bolos de côco e daquelas frutas exóticas, sucos de dezenas de tudo o que eu ainda nem imagina que existissem.
O padre voltou com o santo e com todos os fiéis para dentro da igreja. São Sebastião como sempre aclamado. Quando entramos na igreja treinei o que aprendi naquele princípio de noite: dormir ereta num banco de igreja. Desta vez foi a Miriam quem me cutucou: – Malluh você vai ter que comungar. D. Jeanete e Sr. Joás estão dando hóstia!… Miriam não era muito chegada às coisas da Igreja Católica e ela tinha umas tiradas engraçadas demais. Tentei convencê-la a ir comigo e ela não aceitou. Fui eu, de vestido de alcinha, chinelinho no pé, receosa do padre me expulsar daquele lugar. Mas, não tive problema algum, quem me deu comunhão foi a D. Jeanete que naquela hora recuperou a alegria de ter à sua frente uma filha de sua grande amiga Noêmia.

No dia seguinte vimos o tamanho da nossa ‘ignorância’. Estávamos com os nossos corpos cobertos por picadas de muriçoca (pernilongo) que nos devoraram enquanto ficamos ali paradas no banquinho da praça da matriz, enquanto todos corriam aclamando São Sebastião. Os fiéis andavam ligeiro para ‘enganar’ os mosquitos certeiros. Era este o motivo da carreira com o andor do santo…
(continua)

Malluh Praxedes