Daquilo que eu sei

O nome é de uma música de Ivan Lins, com letra de Victor Martins, que diz assim: “Daquilo que eu sei / Nem tudo me deu clareza / Nem tudo foi permitido / Nem tudo me deu certeza…”

Sou do tipo de ser humano que nasceu pra escrever mesmo. Não sei ficar um dia sequer sem me arriscar a ‘botar as letrinhas no papel’. Papel que hoje significa no computador mesmo, na página de um programa que todos conhecem por ‘word’. Amo computador, amo pesquisar e agora – finalmente – descobri o ‘Facebook’. Meu Deus que delícia! Tem o lado bom e tem o ótimo, e tem o lado chatinho, chatinho. Tem gente que fica implorando pra ser ‘adicionado(a)’ como amigo(a) e a gente nem suporta aquele ser. Um saco. Desculpem-me, mas não encontro outra palavra que expresse melhor: um saco.

Reencontro pessoas diariamente. E sempre ouvi todo mundo dizendo: encontrei um amigo do tempo da faculdade! Eu dizia: – Como assim? Manda um e-mail pra ele! E me diziam: – É diferente. Lá a gente fica sabendo de tudo ao mesmo tempo agora.

Enfim, resumo de tudo: meu sobrinho Bernardo me adicionou no Facebook, montou minha página e me orientou: – Tia Malluh você tem uma foto que você gosta muito? Mas tem que ser uma foto muito boa mesmo!… Epa, o que você quer dizer com isto?, eu quis saber… Brincadeiras à parte, a partir daquele dia não saí mais daquele mundo virtual.

Imagina que ontem eu estava de manhã de frente ao computador, me arrumando pra sair e vejo uma mensagem de um amigo comum dando os pêsames para outro. Fui pesquisando daqui, dali e quase caí de quatro: meu amigo Cássio havia perdido seu único filho homem, de apenas 25 anos, num desastre de carro, em frente ao Ponteio Lar Shopping. Não acreditei: eu estava no Ponteio exatamente na hora e cheguei a ver a cena terrível de um carro enfiado na traseira de um �?nibus. Pois era o filho do Cássio. Enfim, de repente eu nem teria ficado sabendo e lá fui eu comunicando a outros amigos a triste notícia… Hoje, apenas um dia depois da tragédia, o pai coloca uma foto dele co m o filho, uma cena linda de um beijo de pai para filho com o título: amor de pai. Olha, foi demais. Uma emoção só. E dezenas de amigos comuns estavam ali se solidarizando com o querido Cássio e sua família.

Pode ser que o mundo virtual não seja tão bom assim, que o melhor mesmo seja você sentir o abraço ao vivo, apertar a mão daquele que você não vê há tempos, que sentir o cheiro daquele perfume seja tudo o que você está precisando agora.

Mas, como não se emocionar com as fotos que a Lu coloca diariamente no Face? As fotos do bar Godofredo, que fica ali escondidinho em Santa Tereza? Tem Toninho Horta, tem Gabriel Guedes, tem Milton Nascimento, Paulinho Pedra Azul, Túlio Mourão, quase todos os Borges: Márcio, Marilton, Rodrigo – que junto com o Xexéu divide a casa com um astral divino e maravilhoso!

Se o bairro fica longe de mim, se não posso estar no Godofredo, nem em outros lugares que eu gostaria – tudo ao mesmo tempo agora – , estou agora em casa escrevendo e posso sim cantar com Ivan Lins e refletir: daquilo que eu sei /… / nem tudo me foi possível / nem tudo foi concebido…”

Mas eu vi, eu senti, eu me emocionei. Reencontro amigos, repartimos a dor e dividimos alegrias. Multiplicamos sentimentos. Uma matemática cheia de surpresas, mas que não me faz sentir dividida. Muito mais que tudo isso. E usando a música de Ivan Lins de fundo eu modifico a letra e canto: E é por isso que eu me sinto / cada vez mais livre! / Cada vez mais livre!!!!

Malluh Praxedes