Cinco anos depois

Durante 15 anos vivi na Rua Nunes Vieira esquina com avenida Prudente de Morais. Do meu lado o bairro é Santo Antonio, do outro lado avenida, Cidade Jardim. Costumava brincar que meu IPTU era bem mais barato que o do meu vizinho de frente, o Jorge Lucas.

Lá fiz muitos amigos e ainda está por lá minha dentista, a adorável Thaïs. Fui hoje tomar anestesia para trocar uma peça, depois de desmarcar inúmeras consultas. Na volta, com a boca torta e completamente anestesiada resolvi caminhar para rever minhas manhãs… Foi quase impossível reconhecer aquele lugar. Debaixo do meu prédio existia a loja da Rita, ou a Tippo, onde eu comprava com a maior alegria do mundo as minhas roupas e sapatos. Rita não vem mais na loja, agora é da filha dela. Ok, eu sei disso há tempos, mas a Rita não vai mais à loja? Como assim? Aquilo ali sempre foi a cara da Rita, o estilo da Rita, e hoje não tem mais a minha amiga Rita por lá… Depois procurei um self service argentino, que saiu dali, mas me deu saudades. Tinha uma carne completamente maravilhosa e até hoje não encontrei similar… A loja de roupas infantis da moça que morava no prédio já não está lá mais. Ela deve ter voltado pro Paraná, era um sonho da proprietária que reclamava por não conseguir fazer amigos na cidade… A oficina que não respeita pedestre e suja a calçada inteira, continua lá, firme e cada vez mais imunda. Meu prédio permanece igual, com o portão da garagem permanentemente aberto, e sem o porteiro na guarita. No terreno ao lado, onde ficava uma loja de informática e fotografias existe uma placa ‘aluga’ e muitos carros na calçada e um mendigo morando na calçada – tem colchão, cercadinho e cheiro de comida. No lugar onde existia a Casa e Tintas tem loja nova e uma construção gigantesca que cobriu parte das janelas do ‘meu prédio’…

O posto de gasolina está ali, algumas farmácias novas, muitas lojinhas que jamais tinha visto – de decoração, de 1,99, de roupas, da Hering, enfim… Cheguei a um restaurante chinês que desde que me mudei pra lá – em 1992 encontra-se fechado e caindo aos pedados (cadê a Prefeitura?)…

Os moradores estão do mesmo jeito. Ali se anda muito de roupa de caminhada, já que muitos vão até as pistas da Barragem Santa Lúcia. Era lá que eu caminhava diariamente, com meus trannings coloridos e minhas camisetas brancas. Quando eu reclamava todo dia da barulhenta e desconfortável Prudente de Morais. Quase não reconheci as calçadas que agora ostentam além dos buracos eternos, muitos pombos.

O ponto de táxi mudou de lugar e ao passar pelo novo endereço percebi que os motoristas me reconheceram – afinal, desde que me mudei para a Prudente, se não estou caminhando a pé, estou dentro de um táxi.

Alcancei a avenida do Contorno e coincidentemente caí no lugar onde morei pela primeira vez em Belo Horizonte: rua Santa Catarina com Felipe dos Santos. Inútil olhar para aquele lugar. Não sobrou quase nada, além do sobrado de casas geminadas, onde vivíamos e onde conheci uma família americana, um casal de Santos e uma família paulista. Ali também viviam uma família que veio de Copacabana – rua Barata Ribeiro diretamente para a capital de Minas Gerais… Naquele lugar, onde hoje se amontoam carros e gente, acredite, já foi tão pacato que brincávamos de roda no meio daquelas ruas…

(Malluh Praxedes, 1º 7 2013)