Carta a Fátima Peres

Querida Fátima:

É impossível olhar para você e não enxergar um pouco da sua mãe Déia do Pepé. Pepé que casou-se com a Conceição do Zé Leão e da tia Celuta e assim passou a ser conhecida como ‘Conceição do Pepé’…

Sem quê nem por quê eu me lembrei que ainda menina eu questiona aos mais velhos qual o motivo das pessoas serem tratadas assim: ‘Noêmia do Sylvio’, ‘Olga do Zezinho’, ‘Maria do Juvenal’ enquanto os homens eram Sylvio Praxedes, Zezinho Xavier, Juvenal de Abreu…

Sem compreender exatamente a minha dúvida infantil, eu sentia um certo desconforto com aquela denominação.
Já crescidinha, dizia a mim mesma: quero ser Malluh Praxedes.

Acho que esses lampejos eram o receio de ‘não ser dona de mim mesma’.

Pois um belo dia, ao decidir-me por ser escritora, falei para os meus pais que, já que eu gostava tanto de ficar trancada no quarto – que sempre dividi com alguma irmã -, ouvindo música, pensando em qualquer coisa, e escrevendo páginas e páginas de tudo o que era fruto de minhas dores e amores, estava na hora de ir morar só!

Mamãe chorou muito e papai falou alguma coisa que entendi assim: – Vai filha, ser o que deseja na vida! E, se por algum motivo tiver vontade, volta que a casa é sua!

Já tinha publicado um livro, já produzia shows e entrevistava artistas para o caderno de cultura do jornal Estado de Minas. E a faculdade de Jornalismo me ajudou em muitos aspectos: eu já me sentia no caminho idealizado pela menininha.

E a vida foi ficando assim, com altos e baixos. Com acertos e desconfortáveis momentos de dúvidas, angústias e incertezas. Mas ao mesmo tempo as conquistas chegavam aos poucos.

Saí de Belo Horizonte, morei em Vitória, onde trabalhei em uma agência de publicidade como redatora. Depois fui para Brasília e lá experimentei um projeto audacioso: o Festival  Latinoamericano de Arte e Cultura, atuando na área de produção de divulgação. Nessas duas experiências aprendi tudo o que pude. Perdi muitos medos.

E de volta a Minas Gerais, escolhi ser feliz. Passei a enxergaro sol além do calor, a lua passou a me fazer companhia e as manhãs nunca mais foram iguais. E desde então comecei a cantar, e cantar e cantar, tal e qual o poeta naquela canção.

Obrigada, pois, Fátima, por se interessar tanto por estudar a alma feminina. Sou eternamente grata por ouvir e ver o quanto seu coração tem mostrado ao mundo sua capacidade de perceber tudo. E fazer parte de sua escolha me faz sentir que minha vida de escrevinhadora não tem sido em vão.

PS: Fátima Peres em sua Dissertação de Mestrado da PUC-Minas escreveu: “Memória e Representação da Vivência Feminina nas crônicas de Malluh Praxedes em Aquele Olhar Fora do Corpo”.

(Malluh Praxedes, 15/12/2013)