Alpendre e terreiro

Sim, esses eram os nomes de varanda e quintal. Vez por outra tudo muda de nome. Azul turquesa agora tem o nome de ‘azul Tiffany’ – segundo os designers de interiores. Verde limão já foi verde pistache, hoje não sei o nome exato, mas que não é limão, tenho absoluta certeza.
A mãe de uma amiga disse certa vez que iria chamar um ‘retratista’ para fotografar a formatura do filho caçula. Isso nos anos 1980. Uma das filhas riu tanto, mas tanto que não se aguentou e alertou a mãe desinformada: – Mãe, agora se diz ‘fotógrafo’, tá bem?
A tal mãe, que nunca gostou de levar desaforo pra casa respondeu à altura: – Olha aqui minha filha, quando estava no colégio aprendi assim: quem faz retrato é retratista, aquele espaço na frente da casa chama-se alpendre e quintal era terreiro e fim de papo!
Minha amiga ficou sem graça, mas toda vez que ela me contava o caso eu caia na gargalhada.
As palavras vão perdendo o sentido e fica difícil acreditar que não podemos usá-las mais. Quando comecei a trabalhar contratei um datilógrafo. Hoje é digitador. Nossas baladas chamavam-se ‘nigth’. Cerveja era Brahma. Dizíamos: – Vamos tomar uma Brahma? – , mesmo que fosse uma Antarctica ou Skol. Cueca era Zorba. A gente dizia: – Aquele carinha ali tá com uma Zorba vermelha!… Chocolate quente só se fazia com duas marcas: Toddy ou Nescau. Sorvete era Kibon e não se falava mais nisso. Era o que existia.
Quando nos mudamos para Belo Horizonte um mundo novo se apresentou para nós todos. Por sorte – ou azar – fomos morar no bairro mais elegante daquela época: Bairro de Lourdes, bem na rua Santa Catarina, com Felipe dos Santos. Era um luxo sem tamanho, todas as casas tinham varandas – o que para nós era alpendre. Os terreiros deles eram quintais pequenos, sem muito espaço. Na garagem nada de automóveis, eles tinham carros. E do ano.
Quase todos andavam de patins, alguns tinham calças jeans vindas dos Estados Unidos. Era chique demais. Tênis, não me lembro das marcas, mas o primeiro que tive era um All Star e foi uma delícia sem tamanho.
Tapete era Persa, país que desde 1935 ou 1959 (ainda hoje se discute a exatidão da mudança) é o Irã, mas o nome continua intacto, assim como a qualidade dos tapetes. Óculos de sol? Ray Ban – o que ainda é um luxo! Maiôs das misses? Catalina. Nem misses, nem maiôs. Biquínis, os primeiros chiques mesmo eram da Blue Man – que ainda existe!!! Camisas pólo eram somente da Lacoste – desde 1933, segundo a Wikipédia.
O mundo era assim, sem muitas novidades. Existiam poucos refrigerantes: Coca-cola, Fanta e Guaraná. Poucos enlatados – azeitonas, salsichas e palmitos -, os queijos eram comprados em cooperativas – somente queijos e leites, depois é que passamos a consumir iogurtes, o que foi uma novidade e tanto.
Nunca tivemos varandas, nosso alpendre era enorme, sem coberta nem nada. Sonhava em vê-la assim como as casas que via nos filmes, com cadeiras de balanço e redes coloridas. E nosso quintal, epa, nosso terreiro tinha algumas frutas, era todo cimentado e tinha uma ‘coberta’ – epa, aquilo eu acho que era uma varanda!!! – que tinha uma rede do papai, uma mesa enorme cheia de bancos, onde comíamos nos finais de semana e um banco de alvenaria – que falávamos ‘banco de cimento’, e nessa enorme varanda a gente se escondia da chuva e ficávamos ali na dúvida se a vida podia ser melhor do que naquele lugar.
Ah! A vida sempre tem seus encantos. E montar nossas pequenas histórias faz de cada um, um ser mais especial. Eu gostava de tudo, assim como gosto hoje de lembrar o quanto era ‘miúda’ a vida na minha primeira infância.

(Malluh Praxedes - 27 1 2014)