A tal da felicidade

Quando abri os olhos eu vi um quarto enorme, cheio de gente me olhando e dizendo mais ou menos assim: “Ela se parece com a Dulce!”; ‘Não acho não, ela tem os olhos da tia Maria e a boquinha igualzinha a da tia Olga!”… Mas nada disso me impediu de gritar de fome, eu queria mamar no peito, eu queria tomar sol, pois naquele junho o frio castigava feio.

Depois a vida correu mais macia. Meu pai sempre lendo o jornal na cama, ou sentado numa ‘cadeira do papai’ e eu ali maravilhada por ele conseguir ‘unir tantas letrinhas’. Papai ria e me adiantava: – Filha, um dia você também vai conseguir.

Mamãe era mais ocupada, corria com a lida da casa, mal tinha tempo pra fazer tudo ‘ao mesmo tempo agora’. Eram duas moças trabalhando – uma cozinheira e outra arrumadeira e em alguns dias aparecia uma lavadeira. As roupas de cama eram brancas e precisavam ficar ao sol para permanecerem alvas e macias.

Eu queria conquistar o mundo, queria saber de tudo, mas nem sempre compreendia aquelas conversas sussurradas. Imaginava que o mundo dos adultos era feito de festas em que as moças se vestiam como princesas e os moços com seus ternos bem cortados.

Lembro-me de ter visto um casal entrando na Igreja da Matriz e a moça com um vestido rodado, bem marcado na cintura, quis se ajoelhar e o namorado tirou um lenço branco do bolso e forrou para que ela não ‘machucasse’ os joelhos. E ele permaneceu de pé, com seu terno preto impecável para que não sujasse a calça com vincos. Aquela cena me marcou até hoje.

Depois foi a vez de registrar muita coisa em páginas e páginas de meus diários que iam tomando conta dos meus dias de conflitos e sonhos. Meu primeiro sutiã, meu primeiro beijo, meu primeiro amor. Todos receberam poemas, versos e registros em diversos instantes de minha vida.

Quando vi, a pequena tinha virado mulher e estava ali diante de um número significativo de alunos que ouviam o que eu falava. Meu coração foi ficando molenga, emocionava-me por diversas vezes e ao mesmo tempo em que recorria a lembranças várias, agradecia a Deus por ter tido um pai e uma mãe que me contaram histórias, que me ensinaram a ouvir e a prestar atenção ao meu redor. Sem eles, com certeza eu não teria como abrir o coração para contar para aqueles olhos ávidos que a vida pode sim ser bela. E que o que nos faz sentir assim é esse obcecado desejo de conhecer a alegria de realizar um sonho e que transforma tudo na ‘tal da felicidade’…

(Malluh Praxedes, 30 4 2013)