A influência de Marco Antonio Araujo

Era o ano de 1980 e eu já era uma apaixonada por música. Meus ídolos passavam obviamente pelo Clube da Esquina – que aprendi a amar desde que ouvi pela primeira vez Travessia – e chegavam ao Nordeste desde que conheci a música do Pessoal do Ceará, os pernambucanos Alceu Valença e Geraldinho Azevedo, o paraibano Zé Ramalho, e os baianos da Tropicália + Novos Baianos + Luiz Melodia, Raul Seixas e outras delícias.

Numa viagem a Fortaleza tive o privilégio de assistir a um show/encontro no Teatro José de Alencar, produzido por Raimundo Fagner chamado ‘Soro’. Ali conheci a música de Nonato Luiz e Manassés, dois instrumentistas que me impressionaram pelo virtuosismo e pela sensibilidade em cada melodia que interpretavam com emoção.

Assim que retornei da viagem convidei alguns amigos para produzirmos um show com os dois. O nome foi “Choro Livre” e contamos com a presença maciça de amantes da música instrumental. Na plateia também estavam Fausto Nilo e Alceu Valença. E, discretamente, Marco Antonio Araújo. Foi a partir desse show que conheci o compositor e instrumentista mineiro que me ensinou muita coisa. Principalmente a ouvir a música instrumental.

Meses depois estávamos trabalhando na produção do show Influências, que logo virou disco e ainda hoje é referência para muitos admiradores da boa música produzida por aqui. Marco chegou a gravar quatro discos autorais, além de ‘Influências’, ‘Quanto a Sorte te Solta um Cisne na Noite’, ‘Entre um Silêncio e Outro’ e ‘Lucas’. Depois lançou uma compilação dos dois primeiros álbuns que recebeu o nome de ‘Animal Racional’ (1985).

Daquele ano em diante conheci um mundo novo que passou a fazer parte de minha vida. Através do Marco Antonio Araújo conheci Eduardo Delgado, Mauro Rodrigues, os irmãos Cheib (Lincoln e Ricardo), Antonio Viola, a quem o disco ‘Quando a sorte…’ é dedicado, seu irmão, o guitarrista e compositor Alexandre Araújo… Conheci, através do Keller Veiga, os irmãos Celso Moreira e Juarez Moreira. E depois Nivaldo Ornelas e Cid Ornellas. Nivaldo me apresentou a Paulo Braga, Pascoal Meirelles, Aécio Flávio, Helvius Vilela, Jamil Joanes… Conheci Túlio Mourão, Toninho Horta, Yuri Popoff, Jairo (de) Lara, Mara do Nascimento, José Namen, Nelson Angelo, Gilvan de Oliveira, Weber Lopes, Dado Prates, os irmãos Continentino, André Limão Queiroz, meu Deus a vida foi ficando gigante com tantas notas musicais!!!

Assim passei a produzir música instrumental. Já tive o privilégio de trabalhar com muitos, muitos deles. E cada vez me delicio mais com a música produzida por aqui. Imagina que só em neste ano de 2012 ganhei ou comprei alguns CDs que considero dignos de sua atenção: Rafael Martini e o seu belíssimo ‘Motivo’; Nivaldo Ornelas apresenta ‘Jazz Mineiro Orquestra’; André ‘Limão’ Queróz também lançou um belo CD, Chico Amaral homenageou compositores mineiros de um jeito muito especial em ‘Província’; Thiago Delegado estreou com o CD “Serra do Curral” e já parte para um segundo disco solo.

Eu só quero dizer que esses caras são todos compositores, que se somarmos seus discos autorais é capaz de não conseguirmos contar quantas músicas cada um têm. É um mundo de notas, harmonias, arranjos e deliciosas emoções que a gente nem imagina…

Aí, logo depois que criei o “BDMG-Instrumental” (2001), senti necessidade de homenagear Marco Antônio e assim nasceu o ‘Prêmio Marco Antonio Araújo’ para o melhor cd do ano anterior. E o primeiro vencedor foi Juarez Moreira com o CD “Solo”. Quem nos deu a honra de entregar o prêmio foi Alexandre Araújo, irmão do Marco e ‘herdeiro’ de sua obra.

Foi muito bom dar prosseguimento a tudo o que aprendi e apreendi com Marco Antonio Araújo. Se ele está por aí, deve estar satisfeito. Se existem dezenas de compositores, músicos e arranjadores que povoam nosso Estado, imagino que seja fruto de um belo investimento que ele ajudou a dar forma. E devo confessar que me sinto realizada por ter contribuído para que não morressem muitos e ótimos instrumentistas das Minas Gerais.

Pois então, se você gosta de música, de prestar atenção na beleza de um instrumento, de descobrir novos sons, invista nessa turma. Tem gente boa demais por aqui. E seu mundo musical será outro…

Malluh Praxedes
14 8 2012