A beatificação de Nhá Chica

Desde muito menina conheci Nhá Chica, através de minha mãe Noêmia que acabara de voltar com papai, de Caxias do Sul, cidade em que estiveram participando de um encontro da Ordem Terceira Franciscana. Foi lá que mamãe ouviu a história impressionante de uma mulher, neta de escravos, que passara a vida dedicando-se aos mais pobres.

A partir de então, o nome Nhá Chica passou a fazer parte da minha vida. Se algo sumia em casa eu pedia: – Nhá Chica, me ajude a encontrar!… Podia demorar um pouco, mas olha o objeto perdido ali… Somos desde então ‘amigas de infância’. Eu amo essa mulher e já fui a Baependi diversas vezes visitar a igreja que ela ajudou a construir; visitei seu túmulo e trouxe muitas medalhas e novenas para distribuir com amigos e parentes.

No mês passado recebi um telefonema do Petrônio, colega de faculdade que nasceu em Baependi, cidade que escolheu para trabalhar como arquiteto. Ele me disse: – Sempre quis que seus pais viessem aqui conhecer o lugar onde Nhá Chica viveu, e agora que ela será beatificada, quero que você venha representá-los.

Honrada com o convite fui para o sul de Minas. Ao chegar fui surpreendida por uma cidade completamente amarela e branca, com faixas, bandeirolas e bandeiras estampadas com a única foto que se tem registro da humilde e santa mulher.

Jamais encontrei cidade mais limpa e povo mais feliz por ver o trânsito impedido e todos circulando e se abraçando alegremente depois de tantos invernos: – Quem dera fosse sempre assim! Exclamou Petrônio ao encontrar talvez o 12º amigo pelas calçadas da cidade.

Várias ruas acolhiam moradores vendendo doces, comida caseira, imagens de Nhá Chica, terços, medalhas, panos de prato e toalhas de rosto com o nome da agora beata mineira, em meio a centenas de devotos do Brasil inteiro. O sol ardia e o calor obrigou a maioria a se proteger com guarda-chuvas e sobrinhas. Os sinos das igrejas repicavam. Lá dentro muitos fiéis se revezavam em orações para Nhá Chica.

Missa, procissões e orações. A cidade ficou pequena para tanta gente. Mas nenhuma ocorrência desagradável. Fomos todos felizes naquelas homenagens. Bispo, cardeal, padres, freiras, devotos, turistas, todos com um só objetivo: viver a beleza de ver uma mulher que dedicou toda a sua vida a prestar o bem ao próximo tornar-se Beata Nhá Chica.

Ali eu conheci Ana Lúcia Leite e revi as irmãs Maria do Carmo e Zezeth Nicoliello, mulheres incansáveis na realização da beatificação de Nhá Chica. Alegres, prestativas e corajosas, encararam todos os desafios sem medo de errar. E tudo deu certo.

Serenada a festa, a cidade foi voltando ao seu normal. Lá na Igreja de N.Sra. da Conceição, dezenas de fiéis passavam novamente diante do túmulo de Nhá Chica para agradecer ou pedir. Mas rezavam em silêncio. Talvez, assim como eu, pedindo que o mundo tenha mais paz, harmonia e respeito por todos que estão aqui na terra. Para aqueles que acreditam que a bondade e a humildade farão de nós seres melhores.

E foi assim que voltei para casa. Sentindo-me melhor e bem mais feliz. 

(Malluh Praxedes, 7 5 2013)