A amizade do Boca Livre

 

Em vez de ou ao invés de – aqui o significado é o mesmo – ficar reclamando da atual música brasileira, que tal ir a uma loja de discos (sim, ainda existem e aos montes) e procurar ouvir o que estão lançando por aí?
Faço isso sempre. Tenho a loja Acústica CD, que fica na Savassi, na Fernandes Tourinho, 300, mas não estou aqui para fazer propaganda. Mas lá, você encontra três pessoas que amam música e uma delas é o próprio dono, o Humberto Moreira que tem pedigree no nome: é irmão mais novo dos músicos Celso Moreira e Juarez Moreira.
Entro lá e falo logo: chegou o novo cd do Boca Livre? Eles tinham o disco. O nome é ‘Amizade’, numa clara alusão a um quarteto de amigos que vem contando e cantando o melhor da música brasileira com um estilo único.
Chego em casa e começo a parafernália para a audição do dia. Coloco o disco para ouvir, pego o encarte e aí é letra em música deitada no sofá. Uma ‘ouvida’, duas, três, aí já sei que o disco me pegou.
Recomendo. De cara a primeira faixa do Novelli – saudades! – Baião de Acordar impressiona pela simplicidade poética e riqueza de melodia que não sai da cabeça nunca mais… Arranjos vocais do mestre Maurício Maestro. Perfeito. E o Boca sabe, como poucos passear por essas praias.
Aqui vai a letra:
“Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, / Oito, nove, dez, onze, doze, treze Ferradura, pé de coelho, nada disso adianta… / Trabalha nego / Eu não sei se agora é saudade no peito batendo / Ou se é coisa que a gente aprende se defendendo / Jogue nessa loteria que sua vida resolve / Passe a perna no destino, fure a fila e seja breve / Mas não deixe de ouvir uma música amanhã / Ao acordar…” Baião do Acordar (Novelli)
O disco tem apenas oito canções, mas todas tão belas e tão delicadas que não posso imaginar de outra forma: é ouvir e sentir o quão lindo é uma amizade terna. Os caras sabem trabalhar juntos. Dividem emoções o tempo inteiro: tocam bem e escolhem pessoas mais que especiais para dividirem cada faixa. Lá você vai encontrar Jaques Morelenbaum e seu cello, a percussão de Armando Marçal, o Zé Nogueira, o Danilo Caymmi, a guitarra do Ricardo Silveira, o baixo ‘impiedoso’ do Jorge Hélder (eu amo esse cara!), o piano inesquecível do Cristóvão Bastos, que se não bastasse tocar bem é um compositor e tanto… Apenas para citar alguns.
E tem ‘Paixão de Fé’, uma pérola de Tavinho Moura e Fernando Brant. Música alguma consegue traduzir tão bem a vida ‘miúda’ e rica do povo que mora aqui nessas Minas Gerais.
E o disco chama ‘Amizade’ – parceria de Marcos Valle e Maurício Maestro que traduz tudo: “Amizade é flor que não machuca a mão / Não carrega espinhos / Só beleza em seu botão / E assim sempre foi / Para sempre será / É sem fim nunca vai mudar / É assim sempre foi / Para sempre será / É sem fim, sempre vai durar”. Ah! Nesta faixa o grande Marcos Valle está lá com seu elegante piano acústico.
Obrigada, pois, por dividirem conosco a história dessa bela amizade.

(Malluh Praxedes - 27 1 2014)