Um cenário para a lírica (Sobre Corpos em Cena)

| Por | EM

No teatro clássico francês, aquele que foi construído por Corneille, Racine e Molière e por outros menos cotados, as tragédias e as comédias se estruturavam em cinco atos. Cada um desses atos se dividia em cenas, identificadas estas pelos personagens-atores que se faziam presentes no palco, mudando-se cada uma delas conforme o número deles em palco. Quando o público se defrontava com o anúncio de alguma peça teatral, tinha a expectativa categórica de assistir a uma representação dramática mediada por essas técnicas, ou seja, esperava uma história em cinco atos, cada ato dividido em cenas. Foi baseado nessa estrutura que Eisenstein montou seu filme dialético, O Encouraçado Potemkim. Susanna Busato vale-se dessa estrutura para montar seu livro de poemas, Corpos em Cena (São Paulo, Editora Patuá, 2013, 96 ps.).

Pois o título do livro de Susana nos faria lembrar esse teatro se conhecêssemos a tradição francesa; ou apontaria para qualquer teatro de qualquer época se o leitor costumasse assistir a obras dessa mais completa das artes; ou, se não, referiria o cinema em cujo código técnico a palavra “cena” costuma usar-se, nos roteiros, para definir o espaço de um momento da ação. Mas se lemos o livro todo com suas divisões, nos certificamos de que se trata mesmo de uma referência ao teatro clássico, com seus cinco atos, assim denominados: “Ato 1: Claves em Corpo”, “Ato 2. Sustenidos e Bemóis”; “Ato 3. Corpo em Curva”; “Ato 4. Bemóis”; “Ato 5. Breves e Semifúrias”. Seria, então, uma peça musical? quem sabe uma dança, conforme insinua o título do terceiro ato?

Possivelmente, essas notações encaminham o leitor para a percepção de uma qualidade sensível inerente na arte poética desde as origens, mas cultivada como inalienável da imagem, desde Charles Baudelaire, e operada criticamente desde os grandes simbolistas (Verlaine, Rimbaud e Mallarmé), a saber, a musicalidade. Interpretados como imagens, os poemas se instauram como corpos que se movem segundo um ritmo específico, o das palavras postas em cenas de leitura.

Para o leitor comum – no caso o que escreve este comentário breve – essa musicalidade se faz sentir, antes de tudo, como sequência fônica, que a tradição tornou conhecida como verso e seus constituintes – entoação, intensidade acentual, timbre e medida temporal (métrica)–. Esse leitor se dará conta de que a poeta prefere versos curtos (os elementares e simples) aos longos (os articulados e compostos), os quais se fazem presentes apenas quando o ritmo os exige. Assim acontece por exemplo com os versos horizontalmente longos existentes em “Na serpente de olhos pulsantes” (p. 26). “um caso de amor (p. 36), “palheta” (p. 39), “diálogos íntimos” (p. 41), “as mulheres têm peitos” (p. 52), “A meta física das horas” (p. 69), “Dos meus naufrágios me visto” (p. 75), e nesta “crônica do amor volante”, primor de poema erótico:

Tô chegando, ele disse.
Tô subindo, eu disse,
pelas paredes, louca e demente.
Espero aqui embaixo, ele disse,
enquanto eu, agarrada às correntes,
pelas pernas,
me ungia na urgência
de mais um encontro
com o desespero
do enredo próximo. (p.48)

Mas também o ritmo exigido pela imagem se faz por uma espécie de despedaçamento da frase, que lembra as melodias sincopadas. Assim se apresenta “silêncio”:

(leia mais aqui)

 

 

 

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