A terceira e última parte de “A respeito de um livro de Roberto Gomes”

| Por | EM

(Esta é a terceira e última parte de um comentário de Antonio Manoel sobre “A guitarra de Jimi Hendrix”, o mais recente livro de Roberto Gomes. Caso você não tenha lido as duas primeiras parte, clique aqui.)

Piano, violino e guitarra (A respeito de um livro de Roberto Gomes)

III
Guitarra

O último conto de A guitarra de Jimi Hendrix ilustra, de modo perfeito, aquela idéia de que a obra literária de qualidade constitui um exercício de liberdade criadora, liberdade cujos limites são os seus próprios meios de expressão, sintetizados naquela construção social e histórica que chamamos de “língua”. Sendo assim, a obra literária (o romance, o poema, o conto), pelo fato mesmo de ser um exercício de liberdade, demanda do leitor exercício semelhante no ato de leitura, cujos limites são dados pela própria estrutura do texto lido.

O título do conto, homônimo ao do livro, nos remete a Jimi Hendrix e, se o ouvimos alguma vez, nos remete ao som rascante e violentamente expressivo que o jovem músico costumava extrair de sua guitarra.

O conto em si mesmo nos apresenta um parricídio, meticulosamente calculado, como vingança aos maus tratos que o criminoso sofrera durante a infância e a juventude por parte do pai, indivíduo cruel e perverso.

Uma narrativa de vingança nos faz lembrar a famosa obra de Alexandre Dumas, O Conde de Monte Cristo, e se tivermos lido Júlio Verne, nos faz lembrar também de Matias Sandorf. Assim como se dá com a leitura dessas obras e de todas as outras que dramatizam o retorno e o castigo dos culpados, esta, do Roberto Gomes, nos faz sentir simpatia pelo assassino, o filho de quarenta e poucos anos, Carlos, que aterroriza o pai idoso amarrado numa cadeira de rodas, que é obrigado, indefeso, a ver a preparação para o sacrifício final. O crime consiste em incendiar o casarão onde o velho está preso. Um incêndio singular, pois o filho, um engenheiro, provoca a catástrofe ao som das músicas de Jimi Hendrix, como se lê nos parágrafos finais:Comeu a pizza e tomou uma cerveja. Retirou do bolso do casaco um CD e o colocou no aparelho de som. A vertigem furiosa da guitarra de Jimi Hendrix pareceu por momentos destroçar os olhos do pai, que lutavam para voar como punhais na direção do filho, que imitava os gestos de um guitarrista, enquanto bebia a segunda cerveja.

O casarão estava prestes a explodir. Carlos olhou para os olhos verdes pela última vez e, com os ouvidos cheios de guitarra, desceu as escadas, fechou a porta, foi à caixa de luz, remexeu nuns fios, recuando bruscamente quando uma faísca estalou diante de seus olhos. Que milagres um engenheiro não poderia fazer?Mais fácil do que matar um gato.
Entrou no carro e partiu.
Não demorou para que Jimi Hendrix incendiasse o casarão. 
(p.148)

A última frase faz o leitor, que tivesse sido jovem na década de 1960, lembrar-se daqueles espetáculos em que Hendrix botava fogo na própria guitarra e na própria vestimenta. Mas faz-nos pensar em outros contos, de outras literaturas e da nossa, sobre a casa tomada por forças inexplicáveis, ou destruída pelo fogo, ou seja, La casa tomada, de Júlio Cortázar, A queda do solar de Usher, de Edgar Allan Poe e Nada e a nossa condição, de João Guimarães Rosa.

Além disso, os leitores podem valer-se da liberdade da imaginação crítica e perguntarem se, no livro de Roberto Gomes, a música de Jimi Hendrix não poderia servir como fundo em outros contos que nos falam da violência (“O lutador” e “Como nos velhos tempos”), a iminência da morte (“O terno branco” e “O destino do Almirante Nolasco”), e a perversidade radical (“O cachimbo do professor Dario”). Acho eu que poderia servir para tal fim, principalmente nesta última narrativa, que chega a assustar pelo impacto causado pelo exercício do Mal, com maiúscula mesmo.

O casarão de “A Guitarra de Jimi Hendrix” nos aponta, como outra irradiação proporcionada pela liberdade criadora, para um dos símbolos preferidos pelo autor do livro, isto é, a casa. Presumo que o leitor versado em Gaston Bachelard encontrará nesta obra de Roberto Gomes uma nova poética do abrigo, com muitas variantes, ainda mais se cotejar as suas configurações espaciais com as daquele, mutável e sempre o mesmo, que se observa no romance “autobiográfico” intitulado Todas as casas. A comparação levaria, porém, a outro estudo, bem alentado e extenso, que não cabe neste espaço. Portanto, finalizemos.

Os três contos que escolhemos como eixo de nosso comentário, servem-se da música como arte que, segundo Santo Agostinho, move a alma, ou como arte dinamogênica (Mário de Andrade), ou seja como arte do movimento tanto físico quanto espiritual. Roberto Gomes escolhe três instrumentos desta arte: o piano, o violino e a guitarra elétrica.

Num conto, a música (valsas e choros) propicia um repouso pacífico entre os combates no decurso de um movimento revolucionário. Noutro conto, se assiste ao trabalho de recuperar para a música um instrumento de orquestra, o violino, sendo esse trabalho um espelho da recuperação do equilíbrio amoroso. No terceiro, a música homologa uma ação destrutiva de vingança. Nos três, a música nada tem a ver com as concepções metafísicas da arte, mas sim como uma linguagem (com seus códigos e suas técnicas) para expressão do movimento da interioridade humana, cheia de contradições e indefinições.

Se, numa visão de conjunto, buscarmos as características dominantes deste ótimo livro de Roberto Gomes, não nos custaria reafirmar que realmente estamos diante de contos, seja de ação, seja de clima, a maioria dos quais em terceira pessoa; também confirmaríamos a maestria do autor no uso do diálogo com todas as suas variantes (direto, indireto, indireto livre e narrado) e no uso dos detalhes descritivos sempre motivados, isto é, sempre justificados pelo narrar; não deixaríamos de notar, como tom relevante, a ironia conceitual e de situação sob os diferentes matizes que vão do humor ao sarcasmo; e, por fim, perceberíamos um pendor crítico, inclusive auto-crítico, que não deixa escondido, muitas vezes, o pessimismo diante da vida cultural, da família como instituição, da política e dos políticos, da negativa percepção social do valor da literatura. Este pessimismo de vez em quando se ameniza por meio do que se poderia chamar de otimismo cético.

Antonio Manoel dos Santos Silva
Fevereiro de 2015

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