A invasão de Mariana

A obra

Com este livro de narrativas presto homenagem a meu pai, Antonio Silva Michilim, cujo nome de batismo era simplesmente Antonio Silva, nascido em 1905, na Bahia, e que, no começo do século XX, migrou para o norte do Estado de São Paulo, depois de viver poucos anos em Montes Claros, Minas Gerais.
Rapazinho, Antonio Silva trabalhou em posto de gasolina, na cidade de Pitangueiras. Nesse tempo, postos costumavam vender pneus, dentre os quais os de marca Michelin, anunciados por meio de um bonequinho. Por causa da parecença física com o boneco Michelin, deram para meu pai o apelido de Michilim, que colou. E colou tão fortemente que em Pitangueiras e arredores Antonio Silva era conhecido como Michilim. De modo que não demorou muito para meu pai incorporar o apelido, identificando-se a partir daí, nos documentos, como Antonio Silva Michilim.
Antonio Silva Michilim foi grande contador de histórias. Digo que foi, pois morreu em Curitiba, PR, em 1996, depois de uma vida rica em experiências. Uma vida dura, cheia de trabalho e de aventuras. Alfabetizou-se fora da Escola, com a ajuda de amigos que podiam freqüentá-la; foi frentista; foi chofer de táxi; foi zelador de clube; foi treinador de futebol; foi verdureiro e, sobretudo, foi lavrador. Trabalhava à meia, depois adquiriu um sítiozinho, depois um sítio maior. Os azares da vida fizeram-no boiadeiro, capataz, oleiro. Quase chegou a pequeno fazendeiro. Foi um ser radicalmente político, embora jamais tivesse chegado a vereador, a prefeito. Mas era político, participou da revolução de 32, sofreu muito na época da ditadura Vargas. Discursava bem, tramava a favor de amigos pelos quais militava com empenho e convicção.
Achava que seu maior feito fora conseguir educar os filhos, dos quais um se tornou engenheiro e os outros três, professores em universidades públicas. Sabia muito História e Geografia.
Quando me perguntam a razão do sobrenome “Michilim” é fatal a associação: “é por causa do Miguilim de Guimarães Rosa?” Não é, é por causa da marca Michelin, devidamente abrasileirada em Michilim. Mas podia ser, pois Antonio Silva Michilim tinha um pouco de algumas personagens roseanas, como o sagaz Lalino Salãthiel e Manuelzão. Um sábio.
Tudo isso foi para dizer que este livro deve um pouco, em termos de tom narrativo, ao seu Michilim. Mas deve também ao incentivo amigo de algumas pessoas cujos nomes estão nas dedicatórias que precedem a alguns relatos. A elas agradeço, especialmente ao Affonso Ávila, poeta que me permitiu usar boa parte de Passos da Paixão, texto do livro-arte Cantaria Barroca (1975).
Antonio Manoel dos Santos Silva

 

O autor

Antonio Manoel dos Santos Silva (1941), Licenciado em Letras Neolatinas pela Universidade Federal do Paraná (1965), começou a escrever poesia quando estava no Colégio, mas sua primeira publicação (dois poemas) só aconteceu, como que por descuido e por iniciativa de Guillermo de la Cruz Coronado, em 1969, em anexo da Revista Acadêmica Estudos Anglo-Hispânicos. É de 1995 sua obra Matéria – Correções, em performance com música de Edilson Vicente de Lima e Paulo Augusto Soares e com gravuras de Salete Mulin e Helena Freddi, realizada na Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo; nesse mesmo ano poemas seus foram incluídos na antologia de poetas brasileiros e colombianos Para conocernos mejor/ Para conhecer-nos melhor. Em 1999, publica À espera dos bárbaros e outros poemas na anto¬logia Bárbaros Diversos (Poemas). Em 2000 participa do livro-arte Cartografias Poéticas, com o livre¬to Calendários, cujos poemas dialogam com 12 obras de gravuristas brasileiros. Nesse mesmo ano publicou Tu (poemas), pela Editora Rio-Pretense. Em 2009, publicou, pela Vitrine Literária, “A invasão de Mariana e outros relatos fantasiosos”. Antonio Manoel é, desde 1967, professor de Literatura na UNESP. Atualmente reside em São Paulo, SP.