Um verso de Góngora (em memória de Guillermo de La Cruz Coronado)

Góngora, que foi um dos poetas mais imitados durante o século XVII e metade do XVIII, na Europa e na América, descaradamente plagiado por nosso grande poeta barroco, Gregório de Matos, admirado por Cláudio Manuel da Costa, tem um verso praticamente esquecido hoje. Está no terceiro ato da “comédia” (que hoje chamaríamos de “drama”) Las firmezas de Isabela (literalmente As firmezas de Isabela), que podemos traduzir como As convicções de Isabel. Diz o verso:

Esa montaña, que precipitante
(Essa montanha, que precipitante)

Por que me lembro agora desse verso? Simplesmente porque o maior conhecedor da poesia de Góngora, Guillermo de La Cruz Coronado, morreu no começo deste mês, e porque um comentário que este fez, há quase cinqüenta anos, sobre esse verso, me abriu as portas para a compreensão da poesia.

Era uma aula sobre literatura barroca espanhola, e o professor Coronado, com pouco mais de quarenta anos, se propôs a mostrar-nos de que modo ritmo e imagem formavam, na melhor poesia barroca (e na grande poesia de qualquer tempo) um todo significativo, por assim dizer indissolúvel. Escreveu, no quadro negro puxado ao verde escuro, apenas o verso acima transcrito, assim mesmo isolado, e pediu-nos que apontássemos o ritmo intensivo, ou seja, as sequência de sílabas átonas e acentuadas, segundo o que havíamos aprendido até então.

Éramos cinco privilegiados alunos do segundo ano de Letras Neolatinas, os que tínhamos restado dos trinta do primeiro ano. Olhamo-nos surpresos com a pequena tarefa e tascamos um acento na primeira sílaba, outro na quarta e outro na décima. Como é certo que em espanhol, como em português, os intervalos inacentuados, segundo tínhamos aprendido, não podiam passar de três ou quatro sílabas, tínhamos que encontrar uma sílaba acentuada entre a quarta e a décima. Podia ser a sexta, para o verso ser lido como heróico ( acento obrigatório em sexta e décima), ou podia ser a oitava, para o verso ser lido como sáfico (acento obrigatório em quarta, oitava e décima sílabas). Portanto, como hendecassílabo heróico (decassílabo heróico em português), teríamos:

E sa mon ta ña que pre ci pi tan te

Ou, como hendecassílabo sáfico (decassílabo sáfico em português), teríamos:

E sa mon ta ña que pre ci pi tan te

Como escolher a melhor solução? Tínhamos aprendido que um verso não vive sozinho. O jeito era saber a sequência acentual dos versos anteriores e dos posteriores. Pedimos ao professor que nos dissesse qual o ritmo desses versos. O Coronado fez um dos raros elogios que eu o ouvi fazer, dizendo-nos que um verso isolado não vive isolado, ele vive depois de outros e antes de outros. Nos disse que os dois versos anteriores eram heróicos e o posterior era sáfico, mas que depois os versos voltavam a ser heróicos. Animados com o elogio e baseados na lei da predominância, fizemos a escolha. O verso tinha que ser heróico, com acento, portanto, na sexta sílaba, o que fazia com que a sílaba que recebesse, durante a leitura, um acento que normalmente não teria.

“Vocês realizaram uma escolha correta”, falou-nos o professor. “Uma escolha em que as leituras feitas por vocês obedecem àquilo que os manuais sobre ritmo ensinam. Mas vocês não fizeram as escolhas que a poesia estabelece para o verso”. Então nos mostrou que o vazio acentual de cinco sílabas sugeria a queda da montanha, a velocidade da precipitação, um despenhar-se detido da cidade de Toledo sobre o rio Tejo que a semi-circunda. Enfim, nos mostrou que a passagem da quarta para a décima sílaba, sem intermediação de qualquer outra sílaba fortemente acentuada, constituía a imagem rítmica do conteúdo representado. Na grande poesia, ritmo e imagem conceitual são uma realidade indissolúvel.

Aquilo para nós foi uma revelação, ainda mais que aquele despenhar-se podia sugerir ou intuía uma declínio político.

Guillermo de la Cruz Coronado morreu dia 9 de fevereiro deste ano. Quando a notícia me chegou, dois dias depois, ele já estava enterrado. Quando a notícia me chegou, a imagem dele nos ensinando a compreender um verso de Góngora se fez presente nítida, sem a neblina de tanto tempo que passou entre aquele dia de 1963 e o dia onze deste mês. Depois disso me vieram à lembrança outras imagens: a da leitura que fazia dos quadros de Velásquez, de El Greco, de Zurbarán, de Picasso e de Dali; a da leitura que fez de um poema de García Lorca, Lhanto por Ignácio Sanchez Mejías (Pranto por Ignácio Sanchez Mejías), a da leitura que fez do final de um episódio de Grande Sertão:Veredas, a saber, o episódio do julgamento de Zebebelo; a da conferência que deu sobre os versículos iniciais do Gênesis, com base no texto aramaico; a da interpretação que fez do drama de Calderón de la Barca, A vida é sonho (com a inversão do cogito cartesiano, “penso, logo existo” para “amo, logo existo”), e a franqueza não agressiva que usava para nos ensinar que discurso complexo não é discurso confuso. E muitas outras imagens que compuseram, para mim pelo menos, sua figura grave, austera, muitas vezes ingênua e emotiva, coerente até nas contradições, de uma erudição descomunal, e sempre sábia.

Ele também, como o verso de Góngora, estava quase esquecido no fim da vida.

Antonio Manoel dos Santos Silva (fevereiro de 2012)