Memória Regional

Sim, sei bem que o termo “regional” pode significar espaços diferentes: a nação, a província,uma serra inteira, um recanto marcado pela presença movida e constante de um rio, uma aldeia. Sei também que um romancista russo famoso ampliou sua aldeia, sem aumentar-lhe o tamanho, dando-lhe a dimensão do universo. Ficaria remexendo frases e frases em torno dos sentidos que escapam da palavra regional, mas me volto para um livro de “casos que realmente aconteceram”. Na realidade um livrinho filialmente resgatado de jornais com o título de Isto aconteceu (Curitiba, Criar Edições, 2003), de João Gomes.
Estou diante de pequenas histórias contadas por um jornalista que, sem pretensões literárias, cuidava da linguagem sem escrúpulos parnasianos mas com a correção necessária para não deseducar os leitores. Portanto, as qualidades que porventura tem o livro derivam de uma vocação para contar, um gosto ou prazer de divulgar acontecimentos que poderiam perder-se se alguém não os registrasse, de manter a herança humanamente ancestral de transmissão e de retransmissão, de preservar tipos e pessoas. No caso deste livro podemos até anotar o nascedouro e a formação de um espaço humano distinto.
Primeiro aspecto que me chama a atenção nos casos narrados: a nomeação dos lugares da ação: “Fazenda do Sacramento, localidade próxima de Florianópolis”, “a cidade de Lajes”, “Na cidade de Criciúma, na localidade de linha Batista”, “No interior da colônia de Anitápolis, bem lá no fim da tifa”, “no interior da município de Palhoça”, “Próximo à cidade de Criciúma fica situada a localidade de Sangão, onde existe uma estação da Estrada de Ferro D. Teresa Cristina”, “no sertão dos Cunha”, “Em Painel, isso há muitos anos”, “Na localidade de Fazenda, em Santo Amaro do Cubatão”, “distava três quilômetros da aldeia de Águas Mornas”. Essas designações de lugares, postas no início de cada narrativa, funcionam como garantia de verdade e, ao mesmo tempo, como limite de identificação, como se o narrador nos dissesse: tal fato aconteceu, com tais pessoas e exclusivamente neste lugar. Funcionam também como reforço da comunicabilidade com os habitantes de tais lugares, sutilmente chamados, como leitores, à comprovação dos acontecimentos.
A comunicabilidade constitui o segundo aspecto dessas narrativas. Dá-se por meio das marcações de lugar, como já referimos, mas também por outros meios: a denominação das personagens ou pessoas, a simplicidade da linguagem (aliada à correção) e a fraseologia popular.
A denominação das pessoas acontece freqüentemente por meio de hipocorísticos e apelidos: “tio Maneca”, “Geronço”, “Zé do Morro”, “Pepino”, “Zé Pedro”, “Biriba”, “Tio Zé”, “Zé do Rancho”, “Cazéca”, “Dagostin”, “Chico Maluco”, “Joquinha”. Alguns são explicados: Tio Maneca, impagável conversador, é Manoel dos Santos; Pepino é “um polonês de nome Studinski”; “Biriba”, José Vieira; “Tio Zé”, José de Souza. Três personagens aparecem com os nomes de família, “os colonos Back, Momm e Souza”, de Os três borrachos. Apenas dois, “Feliciano” e “Anacleto”, estão com os nomes próprios.
Da simplicidade e da correção de linguagem, apenas um exemplo: “Se tinha carne, comia. Se não a tinha,comia mesmo pão e, se faltasse o pão ou o feijão, comia mesmo pamonha, mas sem reclamar, sempre sorrindo, sempre contando anedotas.” (p. 28). Ajuda esse estilo da inteligibilidade, o uso de frases feitas, sem quaisquer preocupações de sofisticar por meio de metáforas ou rupturas. Exemplos: “já tinha ultrapassado dos cincoenta ‘janeiros’”, “passando, a pão e água, três dias na sombra”, “Era pobre como Jó e satisfeito da vida como um juscelino.”, “para ele tudo ia bem”, “Caça por lá era mato”, “o tempo chegava até a esquentar”, “já estava mais para lá do que para cá”.
O narrador não esconde seu papel de retransmissor de narrativas ouvidas de outros contadores de casos: “Contou-me um dia tio Maneca” (17); “Eu, que quando criança escutei algumas [façanhas] do bom velho, guardo-as até hoje e com prazer passo aos meus prezados leitores” p. 32); “Em Painel, isso há muitos anos, por que contou meu pai que o fato acontecera quando ele era ainda moço”.(51)
Assim, o autor também se torna um guardião de histórias. Histórias onde, estranhamente, as mulheres são poucas e, quando aparecem, ocupam funções secundárias (as duas noivas, a mulher que apanha do marido) que ilustram a personalidade dos homens. Estes pertencem às camadas mais simples da sociedade: colonos, pequenos sitiantes, comerciantes primários, camponeses, alguns malandros, outros beberrões ocasionais, aqui e ali um ingênuo, um quase esperto, um fanfarrão. As cidades ainda estão se formando. No meio deles os contadores de casos, como o próprio autor que os recolheu ou os transmitiu.

Antonio Manoel dos Santos Silva

(setembro de 2007).