Memória familiar

Em 2001 chegou-me às mãos um livro em formato de bolso, cujo título estranho me sugeria o mundo da medicina e da neurocirurgia: Segurando as Sinapses, de Maria Thereza Pessoa de Mello Salimon (São José do Rio Preto, Casa do Livro, 2001). Confesso até hoje que não fui certificar-me da propriedade de minha impressão, pois, quando li o livro, dei-me conta da importância individual das memórias pessoais e de como estas testemunham que cada um de nós constitui um sujeito plural e que é verdadeira, ainda que não definitiva, a afirmação do filósofo espanhol: “eu sou eu e minhas circunstâncias”.

A autora fala de sua origem familiar, da história de seu pai (nordestino, do Rio Grande do Norte) e de sua mãe (espanhola, da região de Salamanca), de como ambos se encontraram na região noroeste de São Paulo, compartilharam, com o casamento, as vicissitudes da vida familiar e se foram. Não conta essa história do modo linear como resumi, mas sim sob os impulsos das lembranças, recortadas por cenas e fotografias, por registros de lugares e paisagens, por transcrições de provérbios e de máximas, de orações e até de receita. A autora escreve bem, o que não estranhei, haja vista ter sido uma aluna brilhante do Curso de Letras da UNESP, em São José do Rio Preto. A autora escreve bem, demonstra consciência crítica sobre seu texto e sobre os processos com que articula os eventos acontecidos em tempos diferentes, bem como sobre o relativismo das perspectivas possíveis de seu relato alinear. Dirigindo-se ao leitor, expõe no capítulo J & J, de maneira humorada, as linhas gerais que esboçam os perfis das personagens principais e da emergência dos fatos que lhe dizem respeito: “Se você está me lendo é porque tem ou teve pais, e sabe que eles são culpados e inocentes de tudo que nos ocorre. Joaquim e Josefa teriam sido bons, belos, justos? Em primeiro lugar, não estou aqui para julgar ninguém, mesmo porque tenho astigmatismo, hipermetropia e ansiedade. Joaquim e Josefa tiveram sua cota de existência, e da plenitude de suas vidas só fui testemunha em parte. Não sei quantas lâminas de suas personalidades não chegaram a se expor durante o tempo em que estivemos juntos. Do que vi, ouvi, convivi e me lembro vou fazer um relato, não em rigorosa ordem cronológica, mas na ordem dos “nós” da memória.” (p. 14-15).

A bela imagem dos nós da memória, que pode admitir a duplicidade de sentido de seu núcleo, define o enredo textual; as imagens auto-irônicas do astigmatismo e da hipermetropia, bem como das lâminas laboratoriais, caracterizam bem a multiplicidade possível de perspectivas e, conseqüentemente, a consciência da narradora sobre seus limites. Com essa plataforma e com a ajuda de várias testemunhas, Maria Thereza conta uma bela história, na qual as figuras do pai e da mãe ocupam os papéis centrais, cada uma delas com sua genealogia própria e cada uma com suas vicissitudes específicas até se encontrarem numa pequena cidade do interior de São Paulo e se casarem e formarem a família nova. São figuras-pessoas, talhadas na realidade ou por esta marcadas; portanto com as qualidades e os defeitos próprios dos seres humanos. Joaquim, o pai, de ascendência portuguesa, farmacêutico, evoca muito aqueles médicos de aldeia que vemos, em alguns filmes, amorosamente dedicados ao próximo. Josefa, a mãe, espanhola, nos lembra aquelas mulheres fortes dos dramas de Garcia Lorca, curtida pelo sofrimento, enraizada em suas tradições. Interessante que ao comparar pai e mãe, Maria Thereza inverte as expectativas:
“Dizem que Deus faz e o diabo junta. Não duvido, pois imagine um cisne branco navegando num lago azul, e imagine um touro moreno escarvando a arena – acha que haveria a menor possibilidade de se encontrarem, e alguma remota possibilidade de se apaixonarem? Incrível, mas há. Joaquim, nortista, de sardas e olhos azuis, calmo como um lago, encontrou e se apaixonou por Josefa, espanhola morena e inquieta.” (p. 151).

Mas qual é a motivação profunda do livro? Certamente não é a de fazer literatura, embora a literatura aflore em muitos trechos do texto. Talvez seja para dar consistência de tempo às novas gerações que solicitam (ou carecem) saber de suas origens. Com certeza é para responder à pergunta que cada um se faz num determinado momento da existência e que a autora assim formula: Por que eu sou eu e não uma outra pessoa? (p. 13)

Antonio Manoel dos Santos Silva
São Paulo, 14/01/2008