Memória comunitária

Os acadêmicos preocupados com as “poéticas da identidade” deveriam ler o livro de Lino de Miranda, S. Pedro de Rates e Outros Casos Verdadeiros, publicado em 1985, em Povoa de Varzim, Portugal, sob o patrocínio da Associação de Amizade de S. Pedro de Rates, freguesia do Concelho de Povoa do Varzim, na terra de meus avós maternos.
Pausa.

Lino de Miranda Moreira (1941-1990), português, viveu no Brasil foi contista, poeta e romancista. Mas é pouco conhecido. Assim como são praticamente desconhecidos, no Brasil, seus livros, um deles, uma tese sobre Platão que repousa nalguma prateleira de Biblioteca da UNESP, talvez a do campus de Assis.

O livro agora comentado registra lendas e histórias fantásticas, tão popularmente verdadeiras quanto verdadeiros são os demais casos recolhidos pelo autor na cidadezinha de Rates, em Portugal. A cidadezinha tem tradição e suas origens remontam a antes da chegada dos romanos, assim aprendemos ao lermos o diálogo de abertura, “Arqueologia Ratense”. Mas Rates tem um mito próprio que o autor transfigura por meio de um discurso de andamento poético: a lenda de S. Pedro, não o apóstolo, mas o discípulo de Santiago que o consagrou como primeiro bispo de Braga. Sua história atravessa os séculos e, mesmo depois de sacrificado pelos soldados romanos, continua vivo, superando as invasões bárbaras. Também percorre a narrativa, de um modo suspensivo e por dentro – como motivo condutor — , outra que lembra o conto de Eça de Queirós, o Suave Milagre, mas tudo se entrelaça com as várias histórias da cristandade e do povo português, como se a cidadezinha e seu território fossem o eixo do mundo. E o são na medida em que a comunidade ancora sua existência comum em eventos compartilhados, na repetição dos costumes e ritos, nos casos que se preservam pela cadeia oral e, aqui, se fixam com a escrita.

Trata-se de uma transmissão com vários registros: o narrativo que predomina, o dialógico puro, o dialógico dominante sobre o narrativo ou em equilíbrio com o primeiro, e até o versificado, similar, no seu movimento rítmico, às emboladas brasileiras (“Xô Passarada”). Uma ou outra vez o narrador transcreve a fala pessoal, como a do gago e talvez fanho Crespo Velho (”O Barcelão”) ou o falar típico, como se pode observar no hilariante diálogo do casal Luíza e Jacinto Matraco (“Luíxa) ou em parte das falas existentes em “Troupar ou Não, Eis a Questão”.

O bonito do livro, além de “Encantamento” e da vida de S.Pedro de Rates, está no sentido de pertencimento ao lugar e no clima de convívio que emana da designação de personagens (muitos apelidos e hipocorísticos), de cantos e recantos (fontes, árvores, moinhos, sítios, estradas, povoações, casas, etc.), como se todos se conhecessem, como se tudo fosse conhecido. Algumas personagens que aparecem num “caso verdadeiro” reaparecem noutro, e se nós, brasileiros, prestarmos atenção nos tipos, verificaremos algo de nossas origens, costumes, abusões, impertinência e comportamentos:o violeiro, o repentista, o contador de caso, o malandro, o valentão, o “sombra de bandeira”, o bêbado inveterado, o beberrão ocasional, o busca-favores, o gosto do falso prestígio e muita gente honesta e trabalhadora. Há neste livro de memória de uma comunidade, frases para se guardar, por darem a dimensão espiritual e moral dominante nessa cidadezinha de Portugal há algum tempo:

“Naquela família não havia nenhum que não gostasse realmente de “Nosso Senhor”. Gente crente, gente piedosa, gente boa. Missa ao domingo, desobriga uma vez por ano, trabalho duro quase toda a semana, e feira às quintas, em Barcelos.Muita alegria e rosto corado, risos de dentes sãos que nunca foram lavados, o assobio e a cantiga a acompanhar o trabalho, e uma palavra amiga para toda a gente. E quem quisesse ver uma alma feliz, era trazer por perto a infusa do vinho” (p. 72).

“Duas mulheres na mesma casa são como o cão e o gato, que as saias não podem pegar uma na outra. Mas dois homens, um querendo tomar o terreiro e o outro conservá-lo, são como o boi velho e o boi novo: lutam uma vez só, mas de arrasar. Daí em diante respeitam-se.” (p. 89)

“Porque um homem que anda na vida de olhos abertos não acha professores só nos que o são por ofício, mas aprende com tudo que vê e ouve, não sendo destituído.” (p. 139).

“Quanto e quantos fios de aranha ensilvam tantas vezes na vida o caminho de um homem” (p. 140)

Escreve o narrador, em Luíxa, p. 112: “– que em Rates, para se ser rico, bastava ter duas juntas de vacas criadas em terra própria”. É admirável como o autor tirou desse mundo, tão mirrado materialmente, tanta matéria digna de memória.
Em tempo: Tomé de Sousa, primeiro governador geral do Brasil, nasceu em Rates.

São Paulo, outubro de 2007.

Antonio Manoel dos Santos Silva.