Contra o silêncio: a narração

Quem ganhou o prêmio Jabuti de melhor romance, em 1961, foi Porto Calendário, obra de Osório Alves de Castro, nascido há 110 anos, mas registrado em cartório no dia 17 de abril de 1901, em Santa Maria da Vitória, cidade às margens do rio São Francisco. Escreverei um pouco sobre este romance, primo mais rude, nem por isso menos valioso, de Grande Sertão: Veredas, de cujo autor se celebra neste ano o centenário.

A primeira impressão que causa a leitura de Porto Calendário (Rio, Francisco Alves, 1961) é de estranheza, que se mistura com a idéia de caótico, de desorganização, de fragmentação do romance. Sentimos haver um acúmulo excessivo de informações, com centenas de personagens atuando ao mesmo tempo, mil casos se fazendo conhecidos, cruzando-se. Chegamos a perder a noção dos nomes das personagens, de modo que, para prosseguirmos no entendimento do texto, temos de retornar e repetir os passos com atenção redobrada.

Essa desorganização, esse caráter caótico do texto que a primeira leitura imprime em nossa mente, faz com que comecemos a refletir sobre o gênero da narrativa que estamos lendo ou a fazer-nos perguntar sobre a pertinência de haver normas, vindas da tradição européia, para nos guiarem sobre a caracterização de um romance. Os romances não deveriam ser diferentes conforme as realidades que os engendram e esteticamente os justificam?

A realidade configurada por Porto Calendário (e que também o configura) situa-se entre 1899 e fins de janeiro de 1922. Nesses pouco mais de 22 anos vemos desfilar comportamentos sociais, mentalidades, fatos das mais diversas ordem e natureza, num ambiente bem demarcado cujo suporte é a cidade de Santa Maria da Vitória, no interior baiano: a esperança de volta do Império, a resistência contra a República, a vontade do surgimento de um novo Conselheiro, o sebastianismo arraigado na cultura política do povo, o sentimento da presença demoníaca, a recordação do passado heróico relativo à guerra do Paraguai, em primeira instância; em segunda, a briga entre os partidários de Rui Barbosa e de Hermes da Fonseca, a repercussão da primeira guerra mundial, as lutas entre os clãs políticos, o conflito entre a mentalidade agrária e a urbano-industrial, com o acordo final entre comerciantes e os grandes latifundiários na disputa do uso e da troca dos bens ou propriedades.

Dentro dessas circunstâncias temporais e socio-políticas está o trançado do tapete complexo e meticuloso da atuação de centenas e centenas de personagens. Se o examinamos com atenção, percebemos, por entre os fios que o constituem, duas partes. Na primeira visualizamos uma multidão de seres que se movem em grande palco ou em vasta arena. Na segunda parte a ação se afunila, detendo-se nuns dezessete desvalidos, três dos quais escolhidos por Osório Alves de Castro como protagonistas: Lesbãozinho, tocador de viola e também cantador, Orindo Brotas e Joviano. Paulatinamente ganha o centro do palco a personagem Orindo, que o narrador acompanha em suas lides de remeiro, de jagunço a contragosto, de alfaiate e de político. Desse modo temos um afunilamento da pluralidade para a singularidade: incontáveis personagens passam para dezessete, dezessete passam a três, três passam a um. Simultaneamente os espaços modificam-se: do lugar fixo (a Tróia arquetípica?) ao da viagem (os caminhos da Odisséia?).

A escrita de Osório Alves de Castro não imita a escrita de outro escritor; imita, sim, a fala, e uma fala muito peculiar. Talvez se pudesse afirmar que imita a fala de um alfaiate, e isto poderia ser verdadeiro desde que se tratasse de um alfaiate atento à língua viva que lhe chega aos ouvidos, em quaisquer circunstâncias, mesmo a de seu cuidadoso trabalho. Qualquer que seja a hipótese, sentimos que ele escreve não como se escreve; ele escreve como se proseasse conosco na alfaiataria Rex em Marília.

De fato, se analisarmos bem Porto Calendário, ouviremos um desfiar de contos, uns adicionados aos outros e, às vezes, uns encaixados nos outros. Tome-se, por exemplo, o último capítulo da primeira parte do livro: ali temos alguém contando uma “estória”, ali ouvimos alguém, que pode ser o Osório Alves de Castro a contar a história de tia Gatona, como se a estivesse ouvindo; não contente com isso, o autor faz Tia Gatona contar a história dela mesma e, por sua intermediação, contar as de outras personagens que ela ouve. Tal procedimento caracteriza bem o encadeamento narrativo da tradição oral e todo este livro do autor, o primeiro dos que chegou a escrever. Porto Calendário acostuma-nos, pois, com outro método, complicado por certo, mas enraizado na cultura oral.

Essa poética da audibilidade – escrever ouvindo o que foi contado e que se conta –, este modo de narrar cheio de adições, encadeamentos e encaixes, possibilita que se veja o mundo sob as múltiplas perspectivas das diversas personagens que entram na roda própria dos espaços de convivência (o fogo que nos aquece, a mesa da cozinha ou da sala, o círculo dos encontros fraternos, etc.) para, em tons diferentes, nos darem a oportunidade de participarmos de sua experiência quotidiana.

Antonio Manoel dos Santos Silva

São Paulo, 5 de abril de 2008.