Antes do traço, o som

Escrevo sobre um livro de poesia, O Risco Subscrito, de Max Martins, saído em 1980. Pouco conhecido, o Max Martins, nesta paragens de São Paulo, apesar dos prêmios que já recebeu; pouco conhecidos os seus livros, e este, que leio depois de muito tempo, não foge à regra. Faz mais de um quarto de século que foi publicado. Quando o li da primeira vez senti alguma estranheza, estranheza cuja origem talvez estivesse nos constantes ensaios de conciliação entre o visual e o audível, entre o traço e som, entre a espacialização dos versos pela página e a obsedante reiteração fônica. Depois dessa impressão, a causa da estranheza me pareceu outra: estava eu diante de uma voz própria, que animava uma escrita insubordinável às modas vigentes e em atrito com algumas experiências contemporâneas.

Nos poemas do livro sobressai, sem ser única, a espessura sonora, por vezes desprendida como substância estruturante, um segundo valor sobreposto ao sentido existente na conjunção de ritmo e imagem. Assim, quando lemos Estava o Touro, um texto de 1966, o que se imprime primeiramente em nós é o som da consoante /t/, que se reitera do começo ao fim, menos fortemente na terceira linha longa; mas, passada essa impressão imediata – e exatamente por causa dela – começamos a nos indagar sobre o significado e a função das palavras despregadas dos versos: “de ouro”, “mouro”, “louro”, “palavra nua”. E por associação, assim como esses elementos isolados se equivalem espacialmente na página, passamos a verticalizar a leitura, descobrindo, então, no mesmo eixo, as palavras “touro”, “teia”, “flor” e “tu”, e,depois, noutro eixo vertical, “T” (a letra), “tesouro”, “besouro” , “palavra”. Mais um pouco e entramos num mundo imaginário onde alguma coisa de criação se insinua com a concorrência dos mitos e dos símbolos eróticos, bíblico-genésicos e fálicos.

Há poemas cuja espessura fônica torna-os impenetráveis. Dir-se-ia consistirem em textos musicais sem mais significado do que a sua trama fônica, como na composição minimalista de Où sont. Villon?, praticamente uma série de permutações dos termos “sombra”, “som”, “nome”, “neves”, “sonho”, “onde”, “sem”.

Está claro que o poeta sai, de vez em quando, desse emaranhado musical e barroco. Servindo-se do distanciamento irônico se apresenta como personagem indesejável, num bar, ainda num fim de manhã. É o indesejável, o chato, o sozinho que resiste aos olhares ansiosos, senão raivosos e admoestadores, do gerente e dos garçons. Imaginamos o solitário insistindo em rabiscar poemas sobre a mesa e logo vemos os engravatados chegarem e o expulsarem; “lunar oscilo/ solitário/ quando/ vieram uns anjos/ de gravata e me disseram: Fora!”. Não escapa ao leitor que o poema alegoriza o bar como o paraíso invertido, o lugar das flores artificiais, da inspiração induzida pelo álcool, dos anjos que expulsam o poeta de seus domínios, o poeta, o anjo caído. Este texto nos dá uma idéia aproximada do processo criador de Max Martins na elaboração deste livro de poesia: trata-se de um processo de dissolução de formas e concepções (inclusive as oriundas do imaginário ocidental e cristão) combinado com a reversão de expectativas ou, se quisermos, com as rupturas de sistemas, inclusive os sistemas que os próprios textos estabelecem em sua progressão discursiva.

Há poemas neste livro, livro em que domina a temática da palavra e de seu processamento artístico, que valem a pena ser lidos. Cito alguns deles: “Rasuras”, “Um campo de ser”, “O resto são as palavras”, “Travessia e residência”, “Estrias tristes”, “Homo poeticus”, “Poesia!”, e os dois que compõem o “O ovo filosófico”.

Acho, para terminar, que Mário Faustino escolheria como “pedras de toque” do livro: “Os ratos/ roem esta bacia/ e roem a rosa/ da neurose/ a poesia/ a se esvair”, ou
“Atrás da máscara
não há rosto – há palavras
                                                             larvas de nada”

Ou
        “O poema é fome
        de si mesmo”

São Paulo, 18/06/2007
Antonio Manoel dos Santos Silva