Um vírus que não é de gripe

Um sociólogo amigo meu me perguntou um dia, há cerca de vinte anos, por que eram raros os poetas e escritores sem curso regular de Letras. Respondi-lhe que a poesia não precisava desses cursos para se manifestar, porque os cursos de graduação e de pós-graduação em Letras não formavam poetas nem contistas, nem romancistas. O máximo que conseguiam, quando conseguiam, eram formar professores, alguns dos quais ajudavam os alunos a gostarem de ler poesia e ficção narrativa, e pesquisadores que iriam se debater a vida toda para compreender e explicar a Literatura de “maneira científica” ou “objetiva” ou “racional”. Acho que a conversa aconteceu por causa de Adélia Prado.

Hoje responderia de maneira diferente, talvez com mais pessimismo. Responderia que a poesia não escolhe classes, nem tipos sociais, nem profissões. Surge onde menos se espera, ainda que teimemos em querer definir-lhe um lugar e alguns limites. Não sei por que razão essas lembranças me voltaram, mas é fato indubitável que voltaram quando li Vírus, de Walter Merlotto (São José do Rio Preto, Edição do Autor [Vitrine Literária], 2009).

O livro contém 65 poemas curtos distribuídos po três partes diferentes: Romarias (21 textos), Nosso Pecado (18 textos) e Letras cruas (26 textos). Raros sãos os versos medianamente longos, de nove a dez sílabas, percebendo-se de imediato que o poeta foge das medidas regulares e tradicionais e que gosta de fragmentar os períodos melódicos e de ocupar, por meio dessa fragmentação, o espaço da página, de modo a sugerir que os vazios não escritos sejam signo do silêncio ou de um equivalente semântico que se oculta no branco. Exemplos:

Nada do que se lê
é novo,
tudo tem sempre
o sabor do mesmo
osso!
(“Notícias”, p. 36)

Inesperadamente
uma paixão
suicida
de (só) alguns
instantes

no paraíso.
(“Instantes”, p. 64)

Às vezes o poeta exagera nos arabescos e iconiza as frases sem precisão expressiva, ou seja, exprime com a distribuição das letras (ao modo de caligramas, de escalonamentos gráficos ou de saltos silábicos) o significado já manifesto pelas palavras, como se vê em “Gota”( p. 26), “Nós, um rio” (p 40-41), “Verdade” (p. 52), “Vinagre” (p. 62), “A Cidade arde” (p. 74), Exceção a esse tipo de redundância é o poema “Máquinas e homens” (p. 94), em que os mesmos recursos põem em relevo um sentido de dissonância que as frases em si mesmas não expõem.

O livro varia tematicamente, embora se oriente por três núcleos principais. O amor (especialmente na segunda parte), o tempo e a poesia. O primeiro, de que nenhum poeta escapa, deixa evidente as conhecidas variações: contradições, interdição do desejo, sofrimentos, ardor (o fogo) inexplicável, paixão incontida, inacessibilidade do objeto amado, recusas, enfim toda a gama do sentimento “que move o sol e as estrelas” . Nas o poeta de Vírus não escancara os seus impulsos afetivos, nem os faz transbordar em lamúrias. Antes os contém por meio de símbolos e de correlatos objetivos, como no belo poema “Vinagre” (p. 62) que termina assim:

assim também
esta chaga em
mim,
que
não cicatriza por
sua ausência.

Uma ou outra vez, porém, a força do sentimento ganha o corpo com sua energia calorosa, como se lê em “Chama” (p. 53).

O segundo tema recorrente, o tempo, articulado ou não com o tema da morte, se faz notar tanto por meio das imagens de forte tradição (a água, o vento (sopro), o rio, o espelho, as fases da vida, a passagem das horas e dos meses), mas também alcança inusitada e densa configuração como em “Caçadores errantes” (p. 90), onde os contrastes dos espaços em movimento insinuam a ameaça e o desequilíbrio ou, caso se queira, a instabilidade da vida:

enquanto
o céu oculta
seus mistérios

relevantes,

na Terra
os anjos voam
baixo,

subestimando
a mira dos
caçadores errantes.

Este poema, de construção invejável, ilustra a razão pela qual o poeta gosta de tratar da poesia (conseqüentemente, do poema, dos versos e da palavra criadora), que constitui o terceiro tema principal do livro. A poesia comparece aí não só como um exercício que conjura todo o ser, mas como necessidade existencial, nem aparece gratuitamente mas se conquista com esforço árduo, pode transformar-se em consolação ou abrigo, mas, mesmo quando se apresenta como uma destinação que estigmatiza o poeta, chama-o para tirá-la do silêncio de pedra. Acho que essa destinação define o autor de Vírus.

Antonio Manoel dos Santos Silva
25 de Junho de 2009