Um de dois livros de M.P.

M. P. tem muitos livros já publicados. Uma quinzena deles, pelo menos. Li somente dois: um de 2010, que leva o título de Aquele olhar fora do corpo; outro, minúsculo, de 2005, Beijos de acender o dia. A ficha catalográfica do primeiro me assinala que se trata de crônicas; a do segundo, sobre o qual não escreverei hoje, me diz: contos.

Aprendi com o Mário de Andrade que a gente não deve preocupar-se muito com essas classificações, pois muito frequentemente os autores chamam de conto aquilo que ele quer que seja conto e, de crônica, qualquer escrito que saiu em jornal ou revista ocupando aquele espaço encimado com o anúncio “Crônica”. Essa liberdade classificatória proporciona o surgimento de teses e mais teses, congressos literários e mais congressos, sobre gêneros literários e suas fronteiras, hibridismos e rupturas, inovações e invenções. O mundo acadêmico vive muito dessas iguarias azedas, parecendo deliciar-se gulosamente com as divergências de opiniões sobre isso.

Toda essa falação inicial é pra justificar minha opinião de que as crônicas de Malluh Praxedes estão fora de meu conceito de crônica literária; do mesmo modo controverso, nem todos os contos de seu Beijos de acender o dia podem ser chamados de contos se tomo como parâmetro aquilo que entendo por conto. Mas meus pobres rigores conceituais (que muita gente confunde com rigidez de erudito antigo) significam pouca coisa, pois teóricos e críticos mais eruditos têm opinião totalmente diferente. Pois no fundo, bem no fundo, os valores estéticos ou artísticos, contam bem mais que as delimitações teóricas. Valem as figurações e configurações da experiência, que são igualmente experiência.

Aquele olhar fora do corpo (Belo Horizonte: Formato Artes Gráficas, 2010), deixou-me a impressão de ter sido escrito sem preocupações literárias. O título do livro parece desmentir-me, pois me faz lembrar os surrealistas, mas os textos estão em linguagem solta, dispostos numa ordem que tenta refletir os dados da memória segundo uma linha de tempo: infância, adolescência, juventude, maturidade talvez. Não se nota aquela angústia que atormenta alguns escritores que desejam, a todo custo, demonstrar que escrevem artisticamente e que, por causa desses esforço, acabam por se tornar ininteligíveis.

A gente lê o livro e sente prazer em lê-lo, sente prazer até nas seriações de nomes e mais nomes dos habitantes de Pará de Minas, como se a autora nos dissesse que não se esqueceu de ninguém e nem das coisas que marcaram sua infância, sua adolescência e juventude, e nem dos gestos comedidos e educados do pai, e nem dos cuidados da mãe e de suas prendas domésticas e de sua disponibilidade generosa e atenta à carência dos outros.
O livro também provoca o exercício de nossa imaginação visual, quando se narram e descrevem os percursos de seu caminhar pelas ruas, de suas visitas às casas, do próprio espaço familiar.

Uma ou outra vez a cronista se dispõe ao fantástico, melhor dizendo, ao realismo fantástico. O episódio do tio Américo (págs. 75-78), tal como narrado, me fez lembrar Gabriel García Márquez e, mais do que isto, me fez lembrar de minha tia Alice, nascida nos Gerais e ali vivente por muitos anos, que sabia ler o vôo e o canto dos pássaros, os ruídos da noite e o cair, sem mais nem menos, da mesa ao chão, das panelas, das canecas e dos talheres. Muito bonito também, por ser comovente, o texto sobre o encontro com a mãe, depois de morta, no outro lugar, o lugar sobrenatural, por meio de um telefonema: “Um telefonema para matar a saudade” (págs. 237-240). A gente mineira gosta desses mistérios.

Não escapará, a quem se dispuser a ler este livro, a importância que M. P. dá aos espaços de sua cidade, principalmente aqueles que sua memória preservou: casas, quintais, ruas, edifícios (cinemas, sapatarias, tipografias), a cidade de Pará de Minas enfim, e as pessoas que lhes deram sentido humano.

Também não escapará ao leitor a insistência com que volta, repetidas vezes, ao tema e às manifestações da amizade, um dos valores mais relevantes que atravessa, expressivamente, o livro. Competindo com esse aspecto do mundo emocional, há o sentimento da alegria, fato raro nos escritos de hoje. Talvez este último seja o responsável por dois sequestros notáveis: as mortes do pai e da mãe.

Está claro que há algum leitor, exigente além da conta, que pede maior aprofundamento, maior densidade, mais problematizações. Para este sugiro deter-se nas reflexões sobre o tempo e ali, nos trechos respectivos (“Noção de Tempo” e “Quando é que a vida fica pronta?’), vai descobrir que ela, a Malluh Praxedes, como quem não quer nada, conversa, em silêncio, com Santo Agostinho e com Horácio.

Antonio Manoel (dezembro de 2013)