Segunda Impressão de Magma

Em 2006, saiu a segunda impressão do livro Magma, cuja primeira edição é de 1997. O livro, de João Guimarães Rosa, foi premiado em Concurso de Poesia promovido pela Academia Brasileira de Letras em 1936, dez anos antes de Sagarana vir à luz, 20 anos antes de Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile. O parecer do bondoso relator, o poeta Guilherme de Almeida, carregou-se de elogios. Ano seguinte, em discurso de agradecimento, Guimarães Rosa deixa transparecer a importância ao estímulo da premiação, e ao mesmo tempo coloca nas entressombras das ambiguidades sua crítica negativa: “Obra escrita – obra já lida – obra repudiada: trabalhar em colmeias opacas e largar o enxame ao seu destino, mera aventura de brisas e de asas.”

Alguém – de cujo nome não consigo lembrar – falou desse livro como sendo uma coleção de versos. João Guimarães Rosa recusou-se, enquanto estava vivo, a publicá-lo. Creio que sabia muito bem por quê. Certamente não foi para cobri-lo de mistério e aguçar, com isso, expectativas e curiosidades. Os familiares, vivos, decidiram contra o autor, morto, e acabaram por publicar o livrinho em 1997. Até então, parte dessa obra imatura (Guimarães Rosa tinha 28 anos quando foi premiado), encontrava-se dispersa em trechos de tese de doutorado, para servir à formalidade exigida pela linguagem acadêmica na tentativa de perseguir uma possível evolução do pensamento produtivo do autor; parte estava em apêndice da tese.

Parece que o livro servirá mais para satisfazer o gosto dos poucos especialistas e críticos de Rosa fascinados com a arqueologia de seus textos do que para dar prazer aos leitores comuns que gostam de poesia. Trata-se de um coleção de versos, E se deve louvar o autor pela prudência de não havê-los publicado.

Os textos de Magma ficam muito aquém do esperado naquele poeta que vibra intenso e transfigurador nas narrativas de Sagarana, de Corpo de Baile e de Grande Sertão: Veredas. São predominantemente prosa, disfarçada com a artificialidade visual das interrupções que se costumam verificar nas sequências de versos livres. Denotam a mistura de influências ainda não assimiladas e ainda não fundidas em opção criadora. Trazem, do modernismo combativo (1920-1930), a exterioridade do nacionalismo pitoresco, puxando mais para o verde-amarelismo e a anta que para o pau-brasil e a antropofagia. Ecoa neles um tom que, no estilo, lembra um pouquinho Mário de Andrade e Manuel Bandeira, mas que na essência reflete sem jeito o Cassiano Ricardo de Martim Cererê e o Raul Bopp de Cobra Norato. Em certas passagens o autor rende tributo ao pré-modernismo e a Augusto dos Anjos.

Em Magma nos deparamos com versos de comovente adolescência como Eu queria dormir/ longamente…(um sono só…)? Para esperar assim/ o divino momento que eu pressinto, / em que hás de ser minha… (“Impaciência”), ou No alto da noite as estrelinhas piscam (“Luar”), ou esta ruindade: Somente o segredo, acordado, no caminho claro, /na encruzilhada de todos os caminhos, / andando na tua frente, desvendado, /mas difícil de crer do que de decifrar… (“Iniciação”).

Os poemas, em sua maior parte, alongam-se em demasia, comentando os deslumbramentos diante da natureza, dos costumes e das lendas. Este aspecto, não raro com enchimentos de estereótipos e frases gastas, e a vagueza desfibram boa parte dos textos, sendo sintomático o fato de o jovem Rosa preferir os símiles às metáforas concentradas. Contudo se notam aqui e ali algumas antecipações do futuro inventor. Por exemplo, o fascínio pelos altos vôos das aves, mesmo sendo urubus com seus augúrios, a capacidade de sugerir que se observa no hai-kai “Imensidão” (Cheiro salgado/ de um cavalo suado. / Quem galopa no mar?)” e a percepção certeira do movimento da luminosidade no finzinho de “Luar na mata”.

De fato é uma coleção de versos. Estúrdia.

Antonio Manoel dos Santos Silva