NAINiNÁITiS

De tanto me recomendarem o romance, acabei lendo Nove Noites ( São Paulo, Companhia das Letras, 2006 [Companhia de Bolso, 1ª reimpressão], 150 p.). Se eu disser que não gostei do livro, não tem importância alguma, pois o romance foi ganhador do prêmio de literatura da Biblioteca Nacional e do Portugal Telecom. Portanto, muita gente gostou do livro e encontrou nele insuspeitas qualidades artístico-literárias. Sendo assim, minha opinião tem valor minúsculo diante da grandeza das comissões julgadoras que o avaliaram. Isto vale também se eu escrever que gostei do livro.

Trata-se de romance que se sustenta nas ambigüidades, não nos sete tipos que o estudioso americano, William Empson, formulou. A primeira delas é que sendo escrito em português do Brasil, o texto tem o jeito de romance americano moderno: sobrepõe a reportagem investigativa, a biografia de um explorador americano e a ficção deliberadamente indecisa ou indefinida.

A investigação constitui o motivo determinante da narrativa principal: um escritor, presumivelmente um jornalista brasileiro, instigado por uma notícia de jornal, decide desvendar as causas do suicídio de um etnólogo americano no ano de 1939 em ambiente selvagem ou semi-selvagem do norte do Brasil; paralela a esta narrativa corre outra, a feitura do romance pelo jornalista, talvez o próprio Bernardo de Carvalho. A biografia do etnólogo constitui a faixa narrativa que se tornaria a matéria do romance, mas que fica reduzida a uma contrafação histórica da possível ficção. Essas três trajetórias recebem o alinhavo (sem o acabamento da costura) da escrita em itálico de um outro texto, que se pode chamar de testamento, composto de nove missivas de uma das personagens para um indistinto você, que pode ser o leitor (qualquer um de nós pobres, mas privilegiados poucos felizes, que gostamos de ler romances), o próprio narrador (o presumível jornalista, quem sabe o próprio Bernardo Carvalho), ou uma terceira personagem sempre esperada pelo missivista, o qual talvez tenha imaginado enquanto escrevia o seu “testamento” testemunhal, que alguém, algum dia, se interessasse por querer explicar as razões do suicídio do problemático explorador da cultura indígena. Estamos pois diante de um caso de narrador-personagem, o missivista, que deixa de ser confidente para ser guardião—expectante de uma visita pouco provável, ainda que possível. Ainda mais que seu relato sobre as nove noites com a personagem principal, o etnólogo, conta coisas imaginadas, não integralmente fantásticas, pois passíveis de confirmar-se como fatos acontecidos. Em suma, o texto em itálico, dá lenha para a biografia, esta dá lenha para o romance, este constitui a busca problemática do narrador.

O texto em itálico, que abre materialmente o romance, define uma espécie de ritmo gráfico do livro, pois, com uma leve quebra, acontecida sobre os capítulos quarto e quinto, alterna-se com a escrita normal. Este artifício do escritor, ao instaurar descansos discursivos para o olhar, permite que a leitura suporte o peso das informações e seu emaranhado de incertezas, de suspensões, de transcrições documentárias, de ilustrações fotográficas;mas também ajuda (ou prejudica) no aumento das ambigüidades que parecem gerar-se e crescer da figura do jovem norte-americano Buell Quain, do qual diz o narrador em itálico: “Sempre foi muito ambíguo no que dizia” (p. 117).

O bom romance Nove noites propicia varias reflexões sobre a natureza e as variações das narrativas de fundo histórico e biográfico, sobre as raízes do modo de compor do próprio Bernardo Carvalho (há no texto instigantes referências à literatura anglo-americana) e sobre a difícil articulação entre motivação estética e motivação realista.
Nota-se que o autor se preocupa com a fidedignidade de sua narração. Neste sentido deixa a impressão de que o leitor se importa com isso. Acho que o bom leitor se preocupa (e se encanta esteticamente) com a verossimilhança e esta não se funda na transcrição do registro dos fatos verdadeiros; para esse leitor pouco importa se Buell Quain existiu ou se existiu de fato o engenheiro Manuel Perna. Importa a possibilidade de existência deles, que vai além dos limites dos dez dias e das nove noites; importa a sua ficção. Que poderia ter sido escrita em inglês, não fazendo a menor diferença, a não ser pelo fato de aquela língua ser mais internacional, dominantemente global; o título seria até mais fonicamente poético: Nine Nigths, mas não soaria mais belo que o da imperial língua portuguesa.

São Paulo, 13 de maio de 2008

Antonio Manoel dos Santos Silva