Mural metrópole caos

Por alguma razão, sempre que lia o título do primeiro livro que Luiz Ruffato publicou neste século, via um advérbio “muito” onde estava escrito o adjetivo “muitos”. O advérbio traduzia e traía o que me parecia caracterizar a natureza indomável, a violência, a força e a intensidade. Lendo hoje o livro, a pluralidade redundante do qualificativo em Eles eram muitos cavalos (São Paulo, Boitempo Editorial,2001), se não tem o selo que marca com ferro em brasa o flanco nervoso da carne substantiva dos animais nomeados (provavelmente substitutos metafóricos dos homens, provavelmente alegoria de alguma brutalidade), projeta, com a certeza relativa da ficção, aquela quantidade indefinida em que os componentes são distintos em sua individualidade mas comungam do mesmo status. Muitos são cavalos. Que muitos são esses? Esses muitos são eles. Esses eles, quais são? Nunca me surgiu tão verdadeira a afirmação dos linguistas de que a terceira pessoa (ao contrário do eu e do tu, do nós e do vós) refere a não pessoa. Traduzindo o título: Não pessoas são muitos cavalos. Entretanto…, este livro não se presta à tradução mas, sim, como diriam os irmãos Campos, à transcriação.

O livro foi premiado como romance por instituições respeitáveis, embora não seja romance. Se me fosse permitido, o classificaria como um mural neo-expressionista e caótico, uma acumulação de fragmentos narrativos, a representação de pedaços humanos de uma metrópole que, tendo por tons de fundo o azul da riqueza, do progresso, da beleza civilizada, esconde-se – e quase desaparece – por trás do relevo escuro e ocre dado à miséria, à degradação moral e física, a feiúra das almas. Entre os fragmentos narrativos estão jogados trechos tirados de jornal (classificados com lista de acompanhantes), simuladores de cardápio e de rol de livros em estante, receita para cura de ciúmes, uma página preta sem escrita alguma. Esta anuncia o fim do livro que transcreve um diálogo entre homem e mulher acossados pelo medo, à noite. Os registros discursivos variam enormemente no andar das narrações: diálogo direto contínuo, diálogo direto descontínuo, diálogo indireto comum, diálogo indireto livre, monólogos interiores, fluxos de consciência, relatos em primeira pessoa e em terceira, com focos ora limitados ora oniscientes, etc. Assim, o mundo caótico se representa como texto caótico. Conseqüentemente o realismo dos conteúdos representados encarna-se na forma de representação.

Componente estético marcante do livro são os três fragmentos de abertura: (1.Cabeçalho, 2. O tempo, 3. Hagiologia): sugerem que o autor não tinha nada o que fazer e, para encontrar o caminho, usa de três convenções: (1) o cabeçalho que lembra os cadernos escolares ao indicar data e cidade; (2) informações sobre o tempo; e (3) nota hagiográfica sobre a santa do dia. A primeira convenção sugere o cumprimento de uma tarefa; a segunda delimita o dia da ação, ou melhor, de todas as pequenas e incompletas histórias que se sucedem no texto na leitura, mas parecem simultâneas no tempo; a terceira exprime o que vai estar presente em todos os eventos, os necessitados, e também a ausência das virtudes que caracterizam a santa do dia: a piedade e o acolhimento.

Em termos de linguagem, os três textos serão radicalmente contrariados nos demais onde o estilo baixo domina, as normas de coesão gramatical se desfazem, a ordem vira desordem. Aqui e ali se pode ler um episódio emotivamente tocante sobre amizade e fidelidade, mas sem pieguices; todavia o que domina, em linguagem forte e sem peias, são os relatos de violência, de mesquinhez, de corrupção, de desagregação de personalidades, de esvaziamento, de falta de projetos existenciais, de dispersão dos afetos, de frustrações, de sentimentos de perda irremediável, de vidas excluídas dos bens que a cidade, São Paulo, escancara, por diferentes meios de comunicação, como dádivas da modernidade ou como índices de seu progresso. E o autor faz isso com tanta convicção expressiva que nos atordoa. De modo que, ao fechar o livro, ficamos com vontade de sair de casa e andar pelas ruas para darmos conta de outra atmosfera, de outros modos de convívio que também existem, além dessa desgraceira toda.
(Janeiro de 2009)