Maristela e o vilarejo

Numa elegia famosa, Camões refere a lenda em que o poeta Simônides, conversando um dia com Temístocles, se propôs a ensinar a este uma técnica para se lembrar de tudo que lhe havia acontecido. O “capitão” Temístocles recusa esse ensinamento, pois preferia aprender uma técnica contrária, ou seja, a de esquecer os fatos passados de que participara ou que vivera; com as palavras do poeta assim se exprime a recusa de Temístocles:

Se me desses uma arte que em meus dias
Me não lembrasse nada do passado,
Oh! Quanto melhor obra me farias!

Toda vez que leio um livro de memórias, como este que acabei de ler, me vem à mente a “Elegia 4” do grande poeta português que principia com estes versos:

O poeta Simônides, falando
Com o capitão Temístocles, um dia,
Em cousas de ciências praticando,
Uma arte singular lhe prometia,
Que então compunha, com que lhe ensinasse
A se lembrar de tudo o que fazia;
Onde tão sutis regras lhe mostrasse
Que nunca lhe passassem da memória
Em nenhum tempo as cousas que passasse.

Gosto dessa elegia camoniana, por causa de suas lições, mas igualmente por causa das contradições que apresenta, contradições poéticas, bem entendido. Se ele, o poeta, parece seguir o conselho de Temístocles, em verdade o contraria: se a recusa de lembrar se apóia na duplicação do sofrimento, como é que há memórias que selecionam aquilo que vale para tornar mais compreensível o presente? Haveria prazer, e não sofrimento, em lembrar fatos do passado. Desde que os fatos sejam de algum modo relevantes, as memórias valem a pena, nos diz Maristela Veloso Campos Bernardo, em seu livro, A mulher olhando a menina (São Paulo. 2ª edição. Grupo Editorial Scortecci, 2010, 171 p.), livro que passo a comentar sob influência da leitura da elegia 4.

Na introdução, a autora expõe, sem subterfúgios, a causa profunda de seu texto ao apontar para as personagens principais de sua história. As personagens principais são dois indivíduos e uma instituição coletiva, a saber e respectivamente, o pai, a mãe e a escola. A causa profunda revela-se quando apresenta a personagem principal: Escrever sobre meu pai surgiu da vontade de encontrar-me comigo mesma. Na elegia camoniana, esta motivação corresponde à fórmula geral de “medir o presente com o passado”. No texto de Maristela, o passado tem limites definidos, a saber, a meninice. Com isso ela antecipa que a infância foi marcada pela presença do pai. Esta presença se faz forte, mesmo quando seu foco se volta para a mãe e para a escola. Por outro lado, essa meninice aflora com a mediação da palavra, que faz emergir os conteúdos guardados pela memória, sempre seletiva. E aí está um probleminha de veridicção, já que aí intervêm ou pode intervir a fantasia ou a imaginação ficcional. A autora tem consciência crítica dessas mediações quando confessa: “O que vi ou que não vi, mas digo que vi; o que foi ou que não foi, mas digo que foi; nada mais são do que os pendores de uma menina” (p. 17). Isso quer dizer que os limites definidos da meninice terão suas fronteiras “borradas” ou rompidas pela mulher que olha a menina. Pois a mulher, no presente, não olha propriamente a menina do passado, mas sim o que a menina olhou, ou que ela, agora adulta, tenta resgatar dos objetos do olhar (coisas, pessoas, fatos) da criança. Essas mediações acontecem frequentemente com o processo poético do lirismo.

A figura do pai centraliza as memórias, não só na primeira parte (“Meu pai”), que é a mais longa, mas também na segunda (“Mamãe”), atenuando-se e quase desaparecendo na terceira, na qual a vida escolar ganha o protagonismo, sendo notável aí a interferência reflexiva da autora, como educadora que é,
sobre as marcas que a escola deixou em sua formação. Esse movimento reflexivo torna a última parte menos subjetiva ou, se nos valermos de Emil Staiger, menos timbrada pela recordação e pelo devaneio, que costuma se imiscuir nos conteúdos de memória, tal como acontece em muitos momentos da primeira e da segunda parte. Destaco alguns desses momentos em que a autora se aproxima do limiar do lirismo: a descrição das mãos do pai e dos bordados maternos; a evocação do carro de boi e do movimento de compra e venda no interior do armazém; o afloramento do mistério possível dentro da mata fechada ou da fascinação causada pela descoberta das minas d’água; a recuperação das pequenas viagens pelos sítios e fazendas com as paradas determinadas pela curiosidade infantil; a rememoração dos afazeres domésticos e das pequenas dissensões próprias da vida escolar. Há muitos outros fragmentos de memória semelhantes e esses.

Dou-me conta de que este livro de Maristela Bernardo contém vários embriões de narrativas literárias, que muito provavelmente podem-se transformar, se já não se transformaram, em verdadeiros contos, seja de clima (ao modo de Tchekov ou até de Machado de Assis), seja de ação (segundo o desenho fixado por Guy de Maupassant): por exemplo, o episódio da carta ao papa durante a grande estiagem que assolou o noroeste e norte do Estado de São Paulo entre 1952 e 1953, as traquinagens infantis, os desastres e tragédias acontecidas com vizinhos ou conhecidos, uma reação inopinada e “dura” da mãe, os ciúmes infantis, a morte do pai, da qual a autora sequestra, compreensivelmente, qualquer pieguice sentimental, a decisão tomada pela mãe destemida de fazer os filhos estudarem na capital, decisão que se concentra numa frase curta que finaliza a segunda parte: Assim fizemos… A força da frase se compreende melhor depois que sabemos das vicissitudes enfrentadas por essa mulher após a morte do marido.

Por fim, o livro, ao trazer à tona fragmentos do passado, traz junto um contraste que costuma comparecer em boas obras de literatura: o contraste entre a aldeia (Major Prado) e a cidade (Araçatuba ou Rio de Janeiro) entre o riacho (Córrego Azul) e o rio (Tietê), com ênfase nos dois primeiros termos, o Córrego Azul e Major Prado. Não sei se o córrego ainda existe; sei que Major Prado mudou de nome, pois deixou de ser aldeia e distrito. O córrego mantém-se inesquecível e o vilarejo também, graças a este livro. Essa permanência me faz voltar ao início deste artigo, mas não ao mesmo poeta, embora português, e, como aquele do século XVI, enorme cronópio, que falando do riozinho de sua aldeia (e, portanto sobre sua aldeia), para opô-lo ao Tejo, assim escreveu:

Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Disse o grande Tolstoi que sua aldeia resumia o Universo. Fernando Pessoa, pela voz de Alberto Caeiro, escondendo o nome de seu riozinho, o preserva da posse alheia; Maristela Bernardo adota o caminho do escritor russo, e faz-nos conhecer o vilarejo de sua meninice. E se não conseguiu preservar, materialmente, seu córrego azul com os misteriosos e fascinantes minadouros, nem pôde garantir no mapa geográfico o nome de sua aldeia, plasmou nesta tela de memórias, que é seu belo livro, o encanto de seu lugar da infância. E este é um modo de permanência “mais livre e maior”.

Antonio Manoel dos Santos Silva.