Escriba aloprada ou Sobre a mulher que escreveu a Bíblia

Sempre tenho esperanças de que romancistas consagrados escrevam livros de peso nesta época de leveza e de espetáculos divertidos. Era com essa virtude teologal – neste tempo de conflitos entre fundamentalismos ateus e religiosos, a esperança se torna necessária junto com suas irmãs, a fé e a caridade – , que aguardava a leitura de A mulher que escreveu a Bíblia. Quando saiu a notícia de sua publicação e, depois, o prêmio Jabuti que lhe foi conferido e, em seguida, as sucessivas reimpressões, fiquei deveras animado. Quando me perguntavam se já havia lido o livro, respondia que ainda não, que eu preferia curtir minha expectativa para um dia, quanto tivesse bastante tempo, desfrutar, com a demora necessária, o prazer de ler o calhamaço.

Quando eu falava “calhamaço”, meus interlocutores me olhavam com espanto, como se eu estivesse caduco. Pois, alimentado de grandes esperanças, imaginava eu um livro grande, grosso, com trezentas, quatrocentas, quem sabe seiscentas páginas, um romance à altura, pelo menos em sua dimensão física, dos grandes romances da literatura universal. Esquecia-me, por culpa das grandes esperanças, que há romances de menor tamanho e “universais”. Mas quem já tinha lido sabia que este não era bem o peso do livro.E como sói (estou muito antiquado hoje ao usar “sói” em vez de “costuma”) acontecer, ninguém me avisava de que o peso do qual me falavam era qualitativo e não quantitativo.

Foi grande a minha decepção quando pus as mãos no romance. Achei – por culpa de meus desejos simples – que se tratava de uma versão resumida, destas que vão ao que interessa para a distração do leitor. O rapaz que me atendeu na livraria me disse que não, que era aquele mesmo o tamanho do livro. Fui ao gerente da loja; me confirmou que só conhecia o romance naquele tamanhico; dirigi-me ao dono do supermercado de livros e este me garantiu que era aquele mesmo o tamanho do livro: livros pequenos vendem mais.

Pus-me a ler o texto de Moacyr Scliar e, como se tratava de Moacyr Scliar, pensei com meus neurônios: quem sabe se trata de um romance síntese, com muitas camadas de significados, denso, concentrado na conjunção de temas contraditórios ou fechado em impasses existenciais profundos ou complexos, mas com uma estrutura aberta para provocar discussões. Quem seria esta mulher que escreveu a Bíblia e (já imaginando me dizia) que nos enganou por tanto tempo com os vários pseudônimos que até agora, eu, ignorante, pensava serem os autores humanos que mediavam a voz, o verbum, enfim, Deus? Mas nada disso.

A mulher que escreveu a Bíblia foi uma esposa aloprada de Salomão; aliás, não foi esta, mas uma gaúcha feia de doer nos olhos, que, servindo-se de um professor de história travestido de terapeuta de vidas passadas, vira esposa rejeitada de Salomão e, como sabia escrever, recebeu a incumbência de escrever o grande livro. Não é um achado genial? Não é, pois o procedimento, em sua substância e estrutura, é tão antigo como o folhetim romântico, e, em sua aparência e forma mental, baseia-se na preconceituosa visão de que as feias compensam sua feiúra por meio da criação artística ou na idéia desmentida pelos fatos de que a beleza feminina é incompatível com a inteligência.

O ponto de partida, honestamente indicado na epígrafe do livro, é uma fantasiosa observação de Harold Bloom, o mestre dos mestres dos direitos canônicos das altíssimas literaturas; a observação de que há aproximadamente três mil anos uma mulher (uma escriba amadora, sofisticada, culta e irônica, importante figura da elite do rei Salomão) escrevera, como mulher, os livros da Bíblia para seus contemporâneos.

Como os autores românticos que interpõem entre a história que escrevem e eles mesmos uma série de mediadores, Moacyr Scliar usa o truque seguinte: uma doente rica e feia, rejeitada pelo seu terapeuta de vidas passadas, deixa para este um texto em que conta sua história como mulher de Salomão e de como escreveu, a pedido deste, a Bíblia, cujos livros (os rolos de pergaminho) foram.destruídos num incêndio. O ponto instigante do romance é que este procedimento faz com que Moacyr Scliar põe abaixo a fantasia de Harold Bloom. Todavia, mais do que isso, o ponto interessante é que a melhor personagem do romance, o terapeuta de vidas passadas, fica na sombra. Ironicamente, na sombra. Sarcasticamente na sombra. Impiedosamente na sombra. Ironicamente porque nem nome tem; sarcasticamente porque, sendo professor de História, sobrevive profissionalmente como um charlatão de terapia de vidas passadas; impiedosamente porque, sendo professor de História é incapaz de escrever história, só a introdução explicativa dela.

A terceira decepção. O romance abdica de um herói problemático, o perdido e frustrado professor de História, para narrar um pedaço da vida de uma heroína rasa, cujo valor buscado não é a grande obra que a tradição judaica nos legou, mas fazer amor com Salomão, ou, na linguagem dela, “trepar” com o famoso e sábio rei. Toda a ação romanesca encadeia os fatos para este objetivo, afinal alcançado, passando em sobrevôo pelas intrigas da corte, a opressão e a resistência, a infidelidade religiosa do próprio monarca e as conseqüentes crises de fé, a possível contradição entre exercício do poder e criação poética, etc. Fica a impressão de que o romance foi escrito para satisfazer aquela curiosidade dos adolescentes que acaso conhecem, mesmo pela rama, a história de Salomão: “como é que ele dava conta sexual de setecentas esposas e 300 concubinas?” Pode-se dizer que o romance sutiliza algumas simetrias: Salomão sublima o terapeuta; o pastorzinho, ao empregado da fazenda do pai da escritora-personagem; assim por diante. De modo que o leitor mais moderninho e afeito a pesquisar os avessos da narrativa, os intervalos do discurso, a narrativa oculta, pode aventurar-se a forjar algumas correspondências. Em resumo, a estrutura romanesca atende às exigências do mercado do entretenimento.

Esta função fica evidente com o uso do discurso que mescla o registro médio e o registro baixo, não o médio e o baixo dos tempos bíblicos, mas o médio e o baixo de nosso tempo, com fartos anacronismos, vários palavrões e momentos hilariantes. Se juntamos a fantasia, o andamento folhetinesco e o discurso mesclado temos os componentes que a crítica mediana considera as qualidades desse romance: fluência, imaginação e humor. O que pareceu pouco para minhas grandes esperanças. Portanto, minhas decepções têm como origem não o livro do autor, mas minhas expectativas não satisfeitas. Por isso,vou ler o livro de Jó, que não foi escrito pela escriba aloprada.

São Paulo, 18 de abril de 2008

Antonio Manoel dos Santos Silva.