E o soneto ainda anda

E anda muito bem. Desde que seja de bom poeta, como o demonstra Marcus Accioly com DaguerreÓtipos (Escrituras, São Paulo, 2008). O livro todo é de sonetos, só sonetos, 165 sonetos. Os poemas estão urdidos com elegância, rigor, força combativa, tragédia germinal, e , com exceção do primeiro (0º) e do último (), procuram seguir as diretrizes temáticas e estéticas contidas nos seis versos de “DaguerreÓtipo”, que é exatamente o soneto número zero do livro:

“Quero em catorze filmes dar à luz
ao mal que leva o bem até a cruz,
gritando, de loucura e de tristeza,

da máscara-de-ferro do teu verso
que – afivelada às faces do universo –
revela e esconde o rosto da beleza” (p. 23)
O último, indicado com o símbolo do infinito, também trata do soneto, traçando um arco que vem de seu nascimento, no século XII, e vai até os tempos futuros, em suma o nossa tempo

“Se é duplo teu quarteto e teu terceto
e tens quatorze versos, tu, soneto,
em séculos depois, prossegues flor

entregue à mão da dama do futuro.
Mas não te quero assim, em ti procuro
O inferno no poeta e o mal na dor” (p. 201).

Esses dois poemas poderiam fazer parte do livro de honra dos sonetos sobre os sonetos, ao lado dos compostos por Wordsworth, Goethe, Lope de Vega, Jorge Luis Borges, e de tantos outros que cultivaram a forma, mesmo quando se rebelavam contra ela. Pois o soneto, qualquer que seja, menos o primeiro que surgiu na Idade Média, traz em si a prova da falência da originalidade perfeita, sendo ele mesmo, enquanto forma, um convite desafiador para o novo. Quando um poeta escolhe o soneto como meio de expressão, se propõe a aceitação humilde de uma tarefa nobre: a de manter uma estrutura já criada, já definida, já consolidada há séculos. Todavia, se de fato é poeta, tem de marcá-la, a cada uso, a cada variação expressiva, com um selo próprio.
Por isso nenhum dos sonetos desse livro é igual aos outros. Apesar de todos terem dois quartetos e dois tercetos e cada verso ter o mesmo número de sílabas, variam enormemente em sua fatura melódica, no seu ritmo de intensidade e nas suas rimas. Estas mudam de poema para poema em sua distribuição final (alternadas, cruzadas, abraçadas, paralelas, etc.) e na sua natureza (totais, parciais vocálicas, parciais consonantais, parciais vocálico-consonantais, vocabulares, afora as síncopas rimantes). Os acentos intensivos, embora ocupem as posições silábicas com obediência aos intervalos regulares próprios da língua, às vezes colidem expressivamente ou excepcionalmente se distanciam, proporcionando imagens fônicas relevantes para os chamados efeitos de sentido. A sucessão melódica no interior de cada estrofe, ou até transbordando de uma para outra, completa o dinamismo rítmico . Um exemplo que abarca quase todos esses fenômenos é o soneto 39º (Carlos Drummond de Andrade):

De mãos azuis e de óculos azuis
(veias cutâneas e olhos claros) tu,
vendo céu, mar e terra e tudo azul,
eras tão transparente que supus

filho da via-láctea, leite e luz
das estrelas não vistas a olho-nu
no espaço de Gagárin. Porém ful-
guravas sob penas de avestruz

(ou nuvens negras como King-Kong
sem Ann Darrow e sobre o Empire State).
E – rastro azul de rabo de foguete
à lua de Aldrin, Collin e Armstrong –
seguiste a filha morta, além, Drummond,
queimando o som da luz na luz do som.
(p. 62)

Combinando versos inteiriços (sem pausa interna), com versos plurimembres (com pausas internas), enlaçando melodicamente uma estrofe com a outra e, no interior de cada uma delas, um verso com outro, modificando sutilmente as rimas das duas estrofes iniciais, que se apóiam na mesma vogal /u/, e em seguida, pulando a rima imperfeita de State e foguete (/eiti/ – /êti/ descansa sobre a base da vogal /õ/ , para recolher esses fonemas dominantes no bonito verso final.
Entretanto, o suporte sonoro de nada valeria em todos (repito, todos) os sonetos do livro se eles não estivessem eletrizados pela tensão interna dos significados, tensão elevada ao extremo artístico porque contida em quatorze linhas medidas. Os poemas resumem vidas inteiras, ou melhor, capta momentos decisivos de vidas inteiras de seres humanos, principalmente poetas e artistas, devastados por sua excepcionalidade, pela insuportabilidade do finito, por sua rebeldia e, especialmente, pelo acometimento voluntário ao outro lado da existência. Impressiona no livro o tanto de homens e mulheres que escolheram o suicídio ou que foram surpreendidos pela morte (desastres, homicídios), quase conduzidos a ela por algum destino infausto, fato aliás que vem apontado depois de cada soneto com a indicação das datas de nascimento e morte, ladeadas pelo signo do zodíaco respectivo, o que me pareceu uma maldade, a consciência doída do mal, uma profunda ironia.

Antonio Manoel dos Santos Silva
(São Paulo, março de 2009)